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Vitórias não são o suficiente: o que Italo precisa para ser campeão mundial?

Reprodução / Instagram

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Por Guilherme Dorini

Italo Ferreira mostrou por que é considerado um dos melhores surfistas do mundo. Logo na primeira etapa do ano, não só levou o caneco na Gold Coast, como também ficou com o título do campeonato de aéreos organizado pela Red Bull. Novo dono da lycra amarela, ele já é apontado como um dos favoritos ao título do WCT deste ano, mas ele precisa de mais do que vitórias para confirmar esse rótulo: regularidade, grande vilã do ano passado.

É claro que vencer etapas é fundamental para ser campeão mundial, mas a regularidade ao longo de toda temporada é tão importante quanto. E Italo é o próprio exemplo disto.

Na temporada passada, o surfista potiguar faturou três das 11 etapas do Circuito Mundial de Surfe. Brilhou na tradicionalíssima competição em Bells Beach, quando, ainda de quebra, frustrou a aposentadoria de Mick Fanning, seu adversário na decisão, faturou Keramas, em Bali, na Indonésia, e Peniche, em Portugal.

Seu número de vitórias foi exatamente o mesmo de Gabriel Medina (Teahupoo, Rancho e Havaí), mas amargou apenas a quarta colocação geral no Tour, e aí vem o mais curioso, atrás de Julian Wilson (2º) e Filipe Toledo (3º), ambos com menos vitórias que o brasileiro. O australiano venceu duas (Gold Coast e França), mesmo número do compatriota (Rio e J-Bay).

A grande diferenca está na regularidade. Apesar de três ótimos resultados, Italo não conseguiu repetir a mesma constância no restante da temporada. Fez um 5º em Teahupoo e só. Acumulou seis 13º lugar (Gold Coast, Rio, Uluwatu, Racho, França e Pipe) e um 25º (J-Bay). No último ano, até explicamos que a WSL havia valorizado seus campeões, mas que nem isso ajudou o potiguar.

Essa situação, no entanto, não é exclusiva de Italo. Outro brasileiro já viu o título escapar de suas mãos por conta da irregularidade. Em 2015, Filipe Toledo também acumulou incríveis três vitórias durante a temporada (Gold Coast, Rio e Portugal), mas ficou atrás de Medina (3º, com apenas um título), Fanning (2º, com dois) e do campeão Adriano de Souza, que foi campeão vencendo “apenas” Bells e Pipe.

Surfe, Italo tem de sobra. E já provou isso inúmeras vezes. Ele já sabe o caminho das vitórias, falta apenas acertar na regularidade para ter uma temporada inesquecível.

WSL valorizou campeões, mas irregularidade tirou Italo do Mundial

Por Guilherme Dorini

Reprodução/Instagram

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Você pode até estranhar. Como assim o Italo Ferreira é o maior campeão da temporada e não estará na disputa do título mundial no Havaí? Realmente soa estranho, incomoda, mas é a mais pura verdade. Apesar de ser o maior vencedor de etapas do ano - subiu três vezes no lugar mais alto do pódio -, o brasileiro não tem mais chance de conquistar seu primeiro título mundial. E olha que a World Surf League até tentou ajudar...

Explicamos. Até a temporada passada, a pontuação funcionava da seguinte forma:

1º - 10.000
2º - 8.000
3º - 6.500
5º - 5.200
9º - 4.000
13º - 1.750
25º - 500

Para 2018, a WSL mudou realizou mudanças sutis:

1º - 10.000
2º - 7.800
3º - 6.085
5º - 4.745
9º - 3.700
13º - 1.665
25º - 420

A única pontuação que se manteve igual a da temporada passada foi a do primeiro lugar, ou seja, mesmo que tenham sido pequenas as mudanças, a intenção sempre foi beneficiar os campeões das etapas, para que isso pudesse ser ainda mais decisivo na disputa do título mundial. Mas, pelo menos até agora, não foi.

Com duas vitórias cada, Filipe Toledo (Rio e J-Bay), Julian Wilson (Gold Coast e França) e Gabriel Medina (Taiti e Surf Ranch) são os únicos com chances de conquistarem o Mundial em Pipeline, no Havaí. Italo, por mais que tenha vencido uma vez a mais que os três - faturou Bells Beach, Bali e Portugal - já está fora.

WSL

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Vencer três vezes no mesmo ano é espetacular e diz muito do que podemos esperar do surfista potiguar, mas é necessário mais regularidade. Além das três primeiras colocações, Italo só conseguiu somar mais uma boa posição, um quinto no Taiti. Nas outras seis etapas, foi cinco vezes 13º (Gold, Rio, Uluwatu, Ranch e França) e uma vez 25º (J-Bay, seu primeiro descarte).

DÉJÀ VU?

Kelly Cestari/WSL

Kelly Cestari/WSL

E essa situação não é novidade para um brasileiro. O último atleta a conseguir tal "proeza" foi justamente Filipe Toledo. Em 2015, o surfista de Ubatuba havia, assim como Italo, faturado três etapas (Gold Coast, Rio e Portugal), mas também foi atrapalhado pela falta de regularidade na temporada. Mesmo com os três troféus, terminou o ano apenas na quarta posição da classificação geral, atrás de Gabriel Medina, que só havia conquistado um título, Mick Fanning, que levou dois, e Adriano de Souza, que acabou se tornando campeão mundial com apenas duas vitórias (Margaret e Pipeline).

Ryan Callinan tenta, mas último wildcard campeão ainda é brasileiro

Crédito: Sylvia Lima

Crédito: Sylvia Lima

Por Guilherme Dorini

Ryan Callinan bem que tentou, chegou perto, mas ser campeão da elite como wildcard não é para qualquer um. Na última sexta-feira (12), o australiano, depois de já ter eliminado Filipe Toledo no terceiro round, deu trabalho ao compatriota Julian Wilson na grande decisão, mas tomou uma virada nos últimos cinco minutos e acabou com o vice-campeonato na França. Assim, o último atleta wildcard a ser campeão de uma etapa do Circuto Mundial de Surfe (WCT) segue sendo brasileiro: Bruno Santos.

Há 10 anos, Bruninho, como é conhecido, mostrou por que é considerado um dos melhores tubriders do mundo. Em 2008, em Teahupoo, no Taiti, ele não teve vida fácil. Além de se destacar nas seletivas locais - batendo, inclusive, Jamie O’Brien -, deixou para trás Taj Burrow, Mick Fanning, Adriano de Souza, C.J. Hobgood e o local Manoa Drollet na grande decisão.

A vitória, além de consagrar Bruninho, foi responsável por acabar com um enorme jejum brasileiro no WCT. O Brasil não conquistava uma etapa da elite desde 2002, com Neco Pararatz na França. Ou seja, um longo tabu de seis anos.

Há dois anos, quando eu ainda era repórter do UOL Esporte, tive a oportunidade de conversar com Bruninho sobre aquele histórico momento. Relembro abaixo alguns trechos daquela entrevista para vocês.

VITÓRIA ESPECIAL

"Essa vitória teve um gostinho especial por vários motivos. Primeiro que, na época, o Brasil estava passando por um grande jejum de vitórias. Era uma transição entre a geração do Renan (Rocha) e a Brazilian Storm. Eu também não fazer parte da elite, sem dúvida, deu um sentimento especial. Wildcard quando vence é sempre especial, ainda mais não sendo um local do pico. Ainda existia aquele preconceito de que brasileiro não sabia surfar bem ondas tubulares. Galera ficou amarradona na minha vitória. Com certeza ter sido o primeiro brasileiro a vencer ali também tornou mais emocionante, é uma das etapas mais cobiçadas do tour".

PERNA ARREBENTADA

"Foi um campeonato recheado de imprevistos. Primeiro, arrebentei minha perna na semifinal da triagem. Comecei com uma nota 10 na bateria, mas, logo na sequência, caí dentro de um tubo e levei uma pranchada. Abriu minha perna, e ainda surfei a semi e a final com a perna aberta. Só depois fui para marina levar 15 pontos para fechar o corte. Foi um buraco bem grande, que me deixou sem surfar até começar o evento principal.”

PRANCHA EMPRESTADA

“Quando chegou a etapa principal, eu já tinha quebrado todas as minhas pranchas durante a triagem e tive que pegar uma prancha emprestada de um cara que nunca vi na vida, um israelense, mas deu sorte e acabei vencendo com a prancha dele".

Crédito: Sylvia Lima

Crédito: Sylvia Lima

TRIAGEM

"O campeonato para mim foi muito longo, já que tive que começar nas triagens. Tive baterias alucinantes nas triagens, as condições estavam épicas, 10 a 12 pés... Fiz baterias alucinantes com vários surfistas que não estavam na elite, mas que são especialistas neste tipo de onda, como, por exemplo, Jamie O’Brien".

DISPUTA ACIRRADA

"Durante o evento principal, as duas baterias mais apertadas foram contra Mick Fanning e o Mineiro (Adriano de Souza). Como é um campeonato longo, algumas baterias você ganha com certa vantagem, outras são mais equilibradas... Essas duas foram realmente bem apertadas. A do Mick eu virei na regressiva, na última onda, quando já nem acreditava mais que dava para virar. Contra o Mineiro, não. Essa foi uma que dominei a bateria inteira, mas com notas baixas, e até vacilei no final, deixei ele pegar uma que quase conseguiu a virada".

Medina vira líder, mas Filipe mantém vantagem nos descartes

Por Guilherme Dorini

WSL/DAMIEN POULLENOT

WSL/DAMIEN POULLENOT

Está (cada vez mais) aberta a disputa pelo título mundial da temporada. Se o equílibrio na parte de cima da tabela do Circuito Mundial de Surfe (WCT) era visível após o Surf Ranch, ele se fez ainda mais presente no encerramento da etapa da França, que terminou com título de Julian Wilson, um terceiro lugar para Gabriel Medina e uma precoce eliminação do então líder Filipe Toledo, que amargou uma 13ª posição.

Com o resultado, Gabriel Medina assume a lycra amarela, que representa o primeiro lugar na tabela, já para a etapa de Portugal, penúltima da temporada, que já começa no próximo dia 16, na praia de Supertubos, em Peniche. Com o terceiro lugar na França, ele chega aos 51,770 pontos, contra 51,450 de Filipe.

No entanto, se olharmos já para os descartes, a situação ainda é favorável ao surfista de Ubatuba. Agora, com apenas duas etapas restantes, Filipe acumula dois 13º como piores resultados, ou seja, está descartando 3,330, somando, assim, 48,120. Seus piores desempenhos foram em Bells Beach e França.

WSL/KEOKI SAGUIBO

WSL/KEOKI SAGUIBO

Já Medina tem como descarte um 13º, da Gold Coast, e um nono lugar, de Bali. Assim, no momento, ele está descartando 5,365 pontos, ficando com 46,405, pouco menos de dois mil atrás de Filipe Toledo.

Quem corre por fora, mas mais vivo do que nunca na competição, é Julian Wilson. Com a vitória conquistada na França, o australiano ganha novo ânimo para a disputa do título mundial. Com os 10,000 pontos, ele chega aos 47,125. Porém, se também já colocarmos os descartes, um 25º, no Taiti, e um de seus dois 13º, em Bells e Bali, sua pontuação fica em 45,040 - atrás dos dois brasileiros, mas na briga.

A janela para a etapa de Portugal começa no próximo dia 16, terça-feira, e vai até 27, um sábado - a previsão, no entanto, é para um ótimo swell nos quatro primeiros dias. Depois, a decisão chega ao Havaí, em Pipeline, que acontece entre os dias 8 e 20 de dezembro.

Alejo Muniz descarta competir pela Argentina por sonho olímpico

WSL / MOHAMED NAVI

WSL / MOHAMED NAVI

Por Guilherme Dorini

Disputar uma Olimpíada é o sonho de qualquer atleta e, muitos deles, fariam qualquer coisa para atingir tal objetivo. Após a confirmação da entrada do surfe no programa olímpico para os Jogos de 2020, em Tóquio, mudanças importantes foram notadas neste sentido: surfistas optaram por defender outros países - que, é claro, possuíam alguma relação - para ficarem mais perto da competição. O mesmo comportamento poderia ser adotado por Alejo Muniz, argentino naturalizado brasileiro, que, no entanto, rejeitou tal ideia.

"Já passou pela minha cabeça, mas não é uma coisa que quero para agora. Adoro a Argentina, amo lá, acabo representando eles de alguma forma quando estou competindo, tenho muitos amigos que torcem por mim por lá, mas, se a Argentina for, e tomará que vá, já tem ótimos representantes, meu irmão está lá para representar da melhor forma possível. Ainda não sabemos como serão as vagas, mas vou tentar conseguir pelo Brasil se tiver alguma chance", disse em conversa com o Série ao Fundo.

Santiago Muniz, caçula de Alejo, é tido como a grande aposta da Argentina no surfe mundial. Radicado em Santa Catarina, onde cresceu com a família, ele compete hoje pelo país vizinho, diferente de seu irmão, que segue com o verde e amarelo.

Santiago, inclusive, mostrou por que Alejo está certo em apostar em seu potencial. No mês passado, no Japão, ele foi o grande campeão do World Surfing Games, organizada pela ISA, grande responsável pela entrada do surfe nos Jogos Olímpicos.

"Os argentinos têm tanta paixão pelo esporte... É um sentimento maravilhoso ouvir eles gritando meu nome. É um momento excelente, estou muito empolgado. Tento apenas fazer o meu melhor e continuar degrau por degrau. Estou empolgado com o próximo ano, se eu vencer, capaz de ter alguma chance de estar em Tóquio 2020. É um sonho se tornando realidade", expressou Santiago após receber a medalha de ouro.

Na grande decisão, um de seus concorrentes era justamente Kanoa Igarashi, americano com ascendência japonesa, que optou por começar a competir pelas cores da bandeira do país asiático neste ano, aumentando, assim, suas chances de estar na Olimpíada.

WSL / DAMIEN POULLENOT

WSL / DAMIEN POULLENOT

Outro exemplo desta mudança de país é Tatiana Weston-Webb. Filha de brasileira, a havaiana decidiu "trocar" de nação, agora para a verde-amarela, justamente pelos Jogos Olímpicos.

Técnico de futebol e apaixonado por surfe, brasileiro auxilia surfistas no US Open

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Daniel Musatti mora há mais de 10 anos na Califórnia (EUA) e trabalha nas categoria de base do clube de futebol FC Golden State. Porém, ele também é um amante do surfe e vem auxiliando surfistas de alto rendimento.

Musatti já trabalhou com surfistas costarriquenhos e peruanos e deu suporte para Tomas Tudela e Jhonny Guerrero, ambos do Peru, na disputa dos US Open nesta semana.

“O grande objetivo é superar as dificuldades que os surfistas de países que não são da Austrália e Estados Unidos têm em poder surfar constantemente as melhores ondas, sendo treinados pelos melhores treinadores. Eles aprendem diariamente e são inseridos no ambiente do melhor nível possível”, disse.

“Quando o surfista chega aqui, o nosso conceito é que ele se sinta em casa desde o aeroporto. É abrigá-lo aqui na Califórnia como se eles estivessem em casa e providenciar para ele a melhor qualidade de todos os serviços: a parte organizacional, o treinamento físico e funcional, uma dieta balanceada e o trabalho mental com a psicologia esportiva. E tudo isso na mesma casa onde ele fica”, acrescentou.

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Vale ressaltar que a função dele não é auxiliar em todos os fatores importantes que acontecem fora d’água.

“O conceito é trabalhar o aumento da performance do surfista através do suporte em todas as áreas necessárias, mas não a técnica. Não somos treinadores da parte técnica, e sim trabalhamos em conjunto com treinadores da parte técnica”, explicou.

O projeto começou no Havaí em 2015-16 como forma de teste. Agora, Daniel chegou ao modelo ideal para auxiliar os peruanos no US Open. Na sequência, ele também trabalhará durante a Tríplice Coroa, no Havaí, no fim do ano.

“Para surfistas de alguns países sem muita tradição, períodos de treinamento assim valem muito e fazem com que eles evoluam não só o surfe, como também o esporte nos países deles. Tudo leva à evolução do surfista, do esporte no país e gera a criação de eventos”, declarou Musatti.

Pela 1ª vez com o filho, Alejo quer repetir vitória no US Open por volta ao WCT

Por Guilherme Dorini

Alejo Muniz está cada vez mais próximo de voltar ao Circuito Mundial de Surfe (WCT). Depois de liderar boa parte da divisão de acesso (WQS), o argentino radicado no Brasil, mais especificamente em Santa Catarina, já conseguiu todos seus backups necessários no começo da temporada e agora depende, praticamente, de um ótimo resultado em uma das grandes etapas para carimbar de vez sua vaga na elite do próximo ano. E isso pode já acontecer nesta semana, quando o surfista participará do tradicional Vans US Open of Surfing, no qual já foi campeão. Para repetir a façanha, ele ainda terá um aditivo especial: pela primeira vez terá ao lado, em uma competição, Martín, seu filho recém-nascido.

Reprodução / Instagram

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"Meu filho nasceu em janeiro, foi a melhor sensação que já tive na vida. Estou muito feliz com isso, tenho aprendido muito, apesar de ele ter apenas seis meses. Quero tentar minha classificação por ele esse ano, como se fosse um presente para ele. Está sendo muito legal, estamos curtindo pra caramba", relatou Alejo em um bate-papo com o Série ao Fundo nesta semana, antes de revelar que essa também será a primeira viagem do pequeno Martín para assistir ao pai em uma etapa.

"Essa vai ser a primeira vez que a Amanda (esposa) e meu filho vão viajar comigo para um campeonato. Vai ser massa pra caramba! A Amanada já foi em alguns, mas, com ele, vai ser a primeira vez. Meu irmão [Santiago Muniz] também vai estar lá, que é quem sempre viaja comigo, como estamos correndo o WQS juntos há alguns anos. Vai ser muito massa", completou.

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Apesar da felicidade estar completa pelo lado familiar, Alejo viveu um começo de ano conturbado na parte profissional. Após não conseguir a vaga para este ano, ele ainda anunciou em dezembro o fim de sua parceria com a Hurley/Nike, marcas que o patrocinaram durante sete anos. Mesmo sem patrocínio de bico, o brasileiro continuou na luta e viu a situação melhorar pouco a pouco - principalmente com ajuda de marcas "caseiras", de Santa Catarina.

"Ano passado encerrei meu contrato com a Hurley e a Nike, mas sou totalmente agradecido por tudo que eles fizeram por mim. Me apoiaram por sete anos, foram anos muito especiais. Comecei o ano sem patrocínio de bico, mas as coisas foram melhorando, acabei fechando com a Di Colore, cosméticos, aqui de Santa Catarina. Me ajudaram muito para as viagens, para a Austrália. Agora, antes de Ballito, apareceu a Vida Marinha, que é meu patrocínio de bico - uma empresa catarinense também, com história no mercado do surfe. Muito feliz por representar eles e ter um patrocínio de Santa Catarina para me ajudar a competir. Também tenho a Dragon, de óculos, há mais de seis anos, e a Nosso Lar, uma construtura com um time muito grande de surfistas", disse. 

TOM BENNETT / WSL

TOM BENNETT / WSL

Com um bom desempenho no começo do ano, principalmente com a final no Vissla Sydney Surf Pro, Alejo conquistou pontos importantes, assegurando um quarto lugar no ranking geral do WQS - os dez primeiros garantem vaga no WCT. Os resultados servem como bons backups, fazendo com que o brasileiro precise de uma boa performance em um Prime para, praticamente, decretar seu retorno à elite. 

"Estou em quarto, liderei grande parte do circuito, mas ainda não tinha rolado nenhuma etapa Prime. A galera costuma dizer que [o WQS] começa depois de Ballito. Consegui bons resultados no começo do ano, que foram importantes, principalmente a final na Austrália. Hoje, é como se eu já tivesse todos os meus backups, prontos, agora eu preciso buscar um resultado grande em um Prime para me colocar em uma posição muito boa. Se ganhar um Prime, já praticamente me garante ano que vem", analisou.

Alejo foi campeão do US Open em 2013 / WSL

Alejo foi campeão do US Open em 2013 / WSL

"Os Primes são os mais importantes do ano. São os eventos onde você tem que passar menos baterias para alcançar uma maior quantidade de pontos. Para um cara fazer a mesma pontuação que fiz na Austrália, por exemplo, que são os quatro mil pontos, ele precisa de um nono lugar, eu precisei chegar até a final. Tem muita diferença de um Prime para um seis mil, que já é uma etapa muito importante", explicou Alejo, antes de falar sobre sua expectativa para o US Open, que tem janela de competição aberta a partir da próxima segunda-feira (30).

"Expectativa para o US Open é muito grande. Estou me sentindo bem, já venci no passado, vou com a minha família... Tem tudo para dar certo. Preciso até tomar cuidado para não criar muita expectativa, manter os pés no chão e fazer o meu melhor", concluiu o surfista, que já foi campeão desta mesma etapa em 2013, quando bateu na final o dono da casa Kolohe Andino.
 

Phil Rajzman sonha com longboard na Olimpíada: "questão de tempo"

Por Guilherme Dorini

WSL/Tim Hain

WSL/Tim Hain

O mais difícil já aconteceu: o surfe virou, de fato, um esporte olímpico. Mas existe alguma possibilidade da modalidade ir além na competição esportiva mais importante do mundo? Para Phil Rajzman, bicampeão mundial de longboard, sim. Para o brasileiro, é questão de tempo para os pranchões invadirem uma Olimpíada e consolidarem, de vez, o ótimo momento vivido pelo esporte na atualidade.

“O primeiro evento, em Tóquio, a gente sabe que só vai ter a pranchinha, mas a campanha das Olimpíadas da Califórnia, o pin (broche) da campanha era um longboard, uma prancha de surfe. É uma questão de tempo, um vai puxando o outro”, disse em uma conversa com o Série ao Fundo.

Quando perguntado se poderia se aproveitar de alguma maneira desta situação, mesmo já com 35 anos de idade, Phil foi direto.

“Não dá para prever o futuro. Posso dizer que eu amo o que eu faço. Se eu não estiver como atleta, certamente estarei em alguma parte, como técnico, algo nesse sentido. E, na pior das hipóteses, caso eu não esteja envolvido, eu vou estar lá na torcida, vibrando e esperando a medalha de ouro do Brasil”, respondeu esbanjando bom humor.

Essas respostas fazem parte de um bate-papo muito prazeroso que o SAF teve com o bicampeão mundial de longboard. Além do sonho em ver sua modalidade virar olímpica, Phil também comentou sobre o momento do surfe no Brasil, a evolução do esporte, seus novos projetos, a vida em Los Angeles e até mesmo sobre sua paixão por ondas gigantes, o que pode, inclusive, render novos desafios num futuro não tão distante.

A entrevista completa vai ao ar na semana que vem! Não percam!

Longboard, evolução e surfe feminino: um papo com Chloé Calmon

Por Guilherme Dorini

Você acha mais fácil surfar de longboard do que de pranchinha? Pergunte isso para uma menina de 12 anos tentando carregar um pranchão de três metros até dentro do mar. No entanto, por incrível que pareça, foi assim que começou uma longa paixão entre Chloé Calmon e a modalidade que pratica até hoje. A brasileira, que já foi duas vezes vice-campeã mundial na competição chancelada pela World Surf League (WSL), conversou com o Série ao Fundo sobre o início da carreira, surfe feminino, sua evolução e o tão sonhado título.

“Meu objetivo principal é ser campeã mundial. É onde eu coloco toda minha energia treinando e visualizando minha vitória. Sei que é uma coisa que vai vir no tempo certo. Já coloquei muita expectativa em cima disso e me frustrei bastante, embora fossem bons resultados. Já aprendi muita coisa, mas ainda tenho muito para melhorar. Vai ser uma coisa muito natural [ser campeã]. Já visualizei e imaginei várias vezes isso acontecendo”, disse ao SAF.

Reprodução / Instagram

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Aos 23 anos, Chloé é uma das caras do surfe feminino no Brasil. Além de ter uma evolução incrível na parte profissional ao longo dos últimos anos, ela ainda se destaca na televisão com programas sobre o esporte e é vista com ótimos olhos pelas (várias) marcas que a patrocinam. Quando perguntada sobre a situação atual do surfe feminino no país, ela rechaça qualquer tipo de estigma.

“Hoje em dia, as mulheres pararam de ficar batendo nessa mesma tecla de que 'o surfe feminino não tem apoio'. Isso é mentira. Você vê várias empresas grandes patrocinando atletas, o Circuito Brasileiro feminino com mais etapas do que o masculino, o que nunca aconteceu... Acho que as atletas já saíram desse momento de ficar reclamando e já estão vivendo uma fase muito melhor”, opinou.

Confira o bate-papo completo com Chloé Calmon:

Série ao Fundo: Como você começou no surfe?

Reprodução / Instagram

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Chloé Calmon: Ganhei minha primeira prancha com 10 anos, mas tenho foto de fralda em cima de um longboard do meu pai. Ele sempre me levava na praia, me colocava em cima da prancha, nas ondas... Não sei ao certo com quantos anos eu comecei, mas o marco foi quando ganhei minha primeira prancha e comecei a ir todo final de semana. Foi aí que, realmente, começou o meu contato com surfe direto. Fiz natação desde os dois anos de idade, então, sempre me senti muito a vontade na água. Me ajudou muito a entrar no surfe tão cedo.

SAF: E como parou no longboard?

CC: Comecei com um fun board, 6'0, que, para mim, na época, já era maior que eu. Dois anos depois, com 12 anos, eu peguei o longboard do meu pai emprestado em um dia que estava pequeno. E digo que foi amor à primeira onda. Nunca mais devolvi a prancha para ele. Realmente me apaixonei. Todos os meus amigos surfavam de pranchinha e falavam: 'longboard é coisa de velho, de pai'. Mas o que eu achava mais diferente era: como que eu, com 12 anos, conseguia controlar uma prancha de três metros? E como eu conseguia usar cada centímetro daquela prancha tão grande na onda. Para mim era o ballet do surfe, a coisa mais bonita e feminina que tinha de esporte. Mesmo com todas as dificuldades - a prancha não caber no meu braço, ser pesada... Meu pai levava até o pé da água, eu chamava ele para me ajudar quando ia sair... Esse desafio foi o que me manteve no longboard, era por ser mais difícil.

SAF: E ser profissional de pranchinha nunca passou pela sua cabeça?

CC: Eu nunca tive muito gosto pela pranchinha. Me apaixonei pelo longboard desde cedo e nunca tive vontade de seguir um outro lado. Até surfei de pranchinha quando era mais nova, mas o longboard para mim é o mais imprevisível, você nunca enjoa, cada dia pode surfar de um jeito diferente. Um dia você pode ser mais radical, no outro totalmente clássico... Você aproveita ondas de um palmo ou três metros. Algo que me adaptei muito rápido.

SAF: E quando começou de fato a competir?

CC: Comecei a competir com 12 anos mesmo. Meu pai me levava muito na Praia da Macumba, reduto de longboarders do Rio de Janeiro. Em uma dessas vezes, estava tendo uma etapa de um campeonato estadual de longboard. Entrei nessa primeira competição, não tinha mais vaga na feminina, entrei na iniciante masculina, passei duas baterias... Foi quando o bichinho mordeu e eu não queria mais fazer outra coisa. Me profissionalizei dois anos depois, quando eu ganhei o Circuito Petrobras, que era válido como o Brasileiro daquela época - tinha 14 anos. No ano seguinte, ganhei a vaga para competir no Mundial de Longboard, que, na época, era na França. Foi outro marco muito importante. Quando cheguei lá, eu vi que era onde eu queria estar, entre as melhores do mundo, ser uma delas. Sabia que teria que abrir mão de muita coisa, me dedicar, mas sabia também que estava sendo muito sortuda. Então, com 15 anos, foi um marco mesmo.

SAF: E de lá para cá sua história tem evoluído muito. Você foi duas vezes terceiro lugar no Mundial, duas vezes vice-campeã. Esse ano o título vem?

CC: Estou há nove anos no Circuito Mundial, a minha caminhada tem sido muito boa. Tenho aprendido muito a cada ano que passa. É uma caminhada longa. Antes de ser terceira colocada por dois anos, eu fui dois anos como nono lugar, um ano como quinto, dois como terceiro, dois como segundo e, claro, meu objetivo principal é ser campeã mundial. É onde eu coloco toda minha energia treinando e visualizando minha vitória. Sei que é uma coisa que vai vir no tempo certo. Já coloquei muita expectativa em cima disso e me frustrei bastante, embora fossem bons resultados. Já aprendi muita coisa, mas ainda tenho muito para melhorar. Vai ser uma coisa muito natural [ser campeã]. Já visualizei e imaginei várias vezes isso acontecendo.

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SAF: De certa forma, acredita que essas frustrações foram boas para você?

CC: A cada ano eu me fortaleço ainda mais. Estou mais confiante. É longa [caminhada], mas crescente. Vejo algumas meninas que entram no circuito, em dois, três anos, ganham o título, se tornam estrelas da noite para o dia, mas, depois, não têm nenhum resultado forte, não tem consistência - se apaga de novo e não tem um bom resultado. Apesar de não conquistar o título ainda, tenho mantido uma sequência de resultados boa, fazendo pódio em todos os eventos... Isso me deixa cada vez mais perto do meu objetivo.

SAF: O Mundial é um tiro curto*, né? Disputar também a divisão de acesso te ajuda a manter um ritmo de competição?

CC: Fica difícil você treinar 12 meses e competir por cinco dias, uma semana. Tem muita pressão, expectativa... Se você comete algum erro, precisa esperar um ano de novo para colocar em prática o que aprendeu. Então, a forma que encontrei para me manter ativa, competindo, e encontrando o ponto de melhoria, é participando do qualificatório, o LQS (divisão de acesso do longboard mundial), que tem várias etapas ao longo do ano. Continuo em contato com as atletas, surfo ondas diferentes e mantenho um ritmo bom para chegar no Mundial.

*no último ano, a competição foi realizada em duas etapas. Nesta temporada, apenas uma etapa está confirmada até o momento.

Reprodução / Instagram

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SAF: E essa conta fecha? Consegue dinheiro suficiente para viajar para todas essas etapas?

CC: Sim. Hoje em dia, com todos os meus patrocínios, eu consigo viajar, participar dos eventos, fazer viagens de freesurf... Além disso, apresento alguns programas no Canal OFF. Isso tudo me dá uma base para eu viver uma vida de sonho, sempre atrás de novas ondas.

SAF: É notável a transformação que o surfe sofreu no Brasil após os títulos do Gabriel e do Adriano. Você também sentiu isso no surfe feminino?

CC: Acho que foi um divisor de águas muito grande no surfe brasileiro (os primeiros títulos mundiais - do Medina e do Mineiro). Hoje em dia, o surfe é muito popular e tomou um ar muito mais profissional. Antigamente, o surfista tinha a imagem de que não era atleta, era vagabundo, ficava na praia... Hoje em dia é visto como um atleta tão profissional quanto um jogador de futebol, de vôlei... Acho que nessa evolução também anda o surfe feminino. Nos últimos anos, tivemos a volta do cenário de competições no Brasil, você vê o nível aumentando, mulheres surfando tão bem ou até melhor que alguns homens. É uma caminhada lenta, mas crescente. Temos várias empresas apostando no surfe feminino, como a Neutrox, por exemplo, que patrocina a Silvana Lima, a Nicole Pacelli e eu, Eclowater, Roxy... Enfim, várias empresas grandes apostando no surfe feminino, apoiando atletas, revivendo o cenário de competição...

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SAF: Incomoda o fato de o surfe feminino ainda ser relacionado diretamente com a aparência das surfistas?

CC: Minha maior preocupação é ser uma atleta de ponta completa, mas, hoje em dia, não adianta você só ter performance e bom resultado. O trabalho fora da água também é muito importante: o retorno que você dá para seus patrocinadores, o relacionamento com mídia, televisão, falar com jornalistas, mídias sociais... Uma surfista completa é aquela que consegue entregar o pacote completo: tanto dentro como fora da água. A marca te que patrocina quer vender, então ela precisa também da imagem, da propaganda... Às vezes isso vale até mais que o resultado... Meu foco sempre foi fazer os dois lados muito bem, mas sempre tendo em vista que quero ser notada por ser uma ótima surfista, não por ser uma modelo. Tenho os patrocínios que tenho hoje por participar do Circuito Mundial há nove anos, sou profissional há 13... É uma longa caminhada. Tem muita gente que diz: 'é porque apresenta programa no OFF, porque é bonitinha' [que tem patrocínios]. Mas é um trabalho que vem de vários anos.

SAF: Ainda rola muito preconceito? É difícil ser mulher surfista no Brasil?

CC: Acho que se falou sobre isso por muito tempo, mas sempre a [batendo na] mesma tecla, até ficou chato. Se você coloca na cabeça que é difícil ser mulher surfista no Brasil, vai ser assim para o resto da sua vida. Você precisa parar de se olhar como vítima, correr atrás de um melhor desempenho, seja em campeonatos, retorno melhor com patrocinadores, apresentado programa de televisão, sendo jornalista... O mais importante é você correr atrás e dar duro. Hoje em dia, as mulheres pararam de ficar batendo nessa mesma tecla de que 'o surfe feminino não tem apoio'. Isso é mentira. Você vê várias empresas grandes patrocinando atletas, o Circuito Brasileiro feminino com mais etapas do que o masculino, o que nunca aconteceu... Acho que as atletas já saíram desse momento de ficar reclamando e já estão vivendo uma fase muito melhor.

Yuri Soledade analisa evolução do big wave e projeta: "brasileiros vão dominar"

Gary Peterson / Facebook

Gary Peterson / Facebook

Por Guilherme Dorini

Vencedor do XXL em 2016 e um dos responsáveis por estender os limites da remada na famosa onda de Jaws: Yuri Soledade é, sem dúvida, um dos maiores nomes da história do surfe em ondas gigantes. Baiano radicado no Havaí, o surfista faz parte dos Mad Dogs, apelido que ganhou, ao lado de Danilo Couto e Márcio Freire, justamente pela forma como encarava as temidas ondas de Jaws, localizada na pequena ilha de Maui, casa do brasileiro desde 1994.

Em um bate-papo com o Série ao Fundo, Yuri analisou a evolução do surfe em ondas gigantes nos últimos 20 anos, desde os equipamentos utilizados até a maneira como os surfistas se comportam após o drop no paredão de água, e projetou: a nova geração brasileira vai dominar o esporte nos próximos anos.

“Acho que essa galera da nova geração é quem vai ter destaque no futuro. Acho que já está rolando uma troca de gerações, e vejo o Brasil se posicionando muito bem. No futuro, não será apenas no WCT (Circuito Mundial de Surfe), com a galera do Brazilian Storm, mas acho que também no Big Wave Tour (BWT). Fico até com pena dos gringos, porque vai ter um ou outro ali... Os brasileiros vão dominar”, cravou ao SAF.

Além do seu talento dentro do mar, Yuri também é um empresário de mãos cheias. O brasileiro é dono, ao lado de uma sócia, de cinco restaurantes em Maui – já planejando a abertura de um novo em Oahu, o primeiro na outra ilha. Ele ainda é casado com Maria, com quem tem três filhos: Kaipo, do primeiro casamento da esposa, mas que cresceu com Yuri desde os oito meses de vida e que faz sua segurança no mar, Kiara e Koa.

WSL

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Confira na íntegra o bate-papo com Yuri Soledade:

Série ao Fundo: Há dois anos, em uma conversa que tivemos, você apostava que o momento dos brasileiros em ondas gigantes chegaria. Hoje, podemos dizer que esse tão sonhado momento chegou?

Yuri Soledade: Eu acho que sim. Acho que finalmente o big wave está tendo seu espaço devido - não só na mídia especializada, mas também na mídia geral. O Chumbinho (Lucas Chianca) liderando essa galera, tem o (Pedro) Calado e vários outros que estão por vir, como o Kona, para mim tem um talento imenso, o Lapinho (Coutinho)...

SAF: E quais são as principais diferenças da sua geração para essa nova que está chegando?

YS: Na nossa época não existia um caminho traçado, né? Tivemos que lutar, desbravar, descobrir como funcionavam as coisas, principalmente o perigo de se machucar, de até morrer mesmo, que era muito maior. Não existia um caminho, um limite para o tamanho das ondas. Os equipamentos eram totalmente defasados... A galera vinha mesmo no intuito, na paixão, na vontade de botar para baixo, ser um Mad Dog: ir lá e tentar na cara e na coragem. Já essa nova geração, não. Eu senti no Chumbinho: chegou com muita sede, muita vontade e, graças ao (Carlos) Burle, conseguiu manter um foco. O esporte pode machucar muito e ele sofreu com isso neste ano. Se não tivesse machucado, poderia até ter sido campeão mundial já neste ano. A vontade de ir lá e botar para baixo, querer estar em todo swell, virar nas maiores ondas... É uma coisa do brasileiro: aquela raça, vontade de mostrar... Vem muito do coração. Desde criança você sabe quem vai ser um big rider ou não.

SAF: O cenário é mais favorável hoje em dia?

YS: Eu acho que, hoje em dia, os equipamentos, a mídia, tudo dá um apoio muito maior. É muito mais fácil o cara ter condições de viajar, estar em todo swell. Para nós, naquela época eu nem imaginava... Naquela época, ter um Jet ski, era como se o cara me falasse hoje que eu teria um jato particular. Era totalmente fora da nossa realidade. Hoje em dia você já vê os atletas, como o Chumbinho, viajando, passando temporada em Portugal, vindo para Mavericks (EUA), Maui (HAW)... Às vezes, em uma semana, o cara está em três lugares. Naquela época nós não tínhamos dinheiro nem para comer, quem dirá viajar. Isso está ajudando e diminuindo o tempo de evolução. Com 20 e poucos anos, já tem anos de experiência, surfando os maiores mares do planeta. Isso faz com que a evolução seja muito mais rápida e que ele possa se sentir confortável em qualquer condição de mar.

SAF: Aproveitar melhor as ondas, e não apenas sobreviver nelas, é o próximo passo da evolução do big wave?

YS: Acho que sim. O próximo passo das ondas gigantes era realmente poder surfar uma onda grande como se fosse uma pequena. E isso a gente vê na galera da nova geração. Acho que o Chumbinho, o próprio Kai Lenny, e vários outros, realmente assimilaram bem esse propósito e estão colocando em prática. Na nossa época, eu sempre usei isso como meu lema principal: usar a onda grande como se fosse uma onda pequena, mas a gente não tinha o total apoio, nem os equipamentos, nem as pranchas... Acho que esse é o futuro do big wave surfe.

SAF: Há dois anos, você ainda demonstrava um interesse muito grande em ser convidado para mais etapas do BWT. Como está isso?

YS: Eu sempre sonho em participar da etapa de Jaws. Por tudo que, não só eu, mas o Danilo (Couto) e o Márcio (Freire), fizemos aqui por esse esporte, acho que deveríamos ser chamados todos os anos. Mas entendo que, realmente, fica difícil. Fui convidado por dois anos seguidos, nos primeiros anos, esse último ano foi o Danilo chamado, e ainda espero ver o Márcio ali dentro do evento. Sempre sonhei em ser convidado para as outras etapas. Ano passado, pelo ranking do ano retrasado, acabei ficando como um dos primeiros alternates (substitutos). Acabou que era para eu ter ido para o México, e não rolou a vaga, era o segundo alternate de Jaws, um mexicano entrou, e eu não, e fui para Portugal. Lá, era o primeiro alternate, estava com a roupa de borracha, todo pronto, vendo se alguém faltava, mas não surgiu essa oportunidade. Faz parte, temos que entender que existe um número de vagas limitado, e que existem grandes atletas. Tive minha oportunidade. Se pintar, vou estar pronto, disposto, vou estar lá. Mas sei que existe essa nova geração, e também curto ficar do lado, ou trabalhando de técnico, como faço com o Kai Lenny, observando e vendo o que essa galera vai aprontar no futuro.

SAF: Seu filho (Kaipo) continua fazendo sua segurança na água?

YS: O Kaipo continua indo, mas nos últimos anos não tivemos grandes swells em Jaws. Tivemos aquele inverno do El Niño, de 2015 para 2016, e, desde aquela época, não tivemos grandes swells. Ele sempre me acompanha, e agora está montando touro, fazendo os dois esportes que ele mais curte: montar touro (e também é o segurança dos rodeios) e estar em Jaws salvando as pessoas com o jet ski. Ele achou as duas profissões dele, uma na terra e outra na água. Graças a Deus ele continua lá me ajudando e sempre lá para me salvar.

SAF: Imagino a situação da Maria, como mãe e esposa...

YS: Eu tenho a maior pena da minha esposa (risos). A Maria, coitada, não sei o que é pior: o marido que só anda se jogando nas ondas grandes, viajando, Portugal, Jaws... E o filho que agora piorou, agora é o ano inteiro, o marido era só durante o inverno. O filho, não, é quase toda semana - e volta todo quebrado: o touro pisa em cima, dá uma chifrada... Aí vai para Jaws, aquela adrenalina, não sabe se vai voltar... Realmente, eu dou o maior valor para minha esposa. Ela está de parabéns por segurar essa onda, não é uma onda que eu gostaria para ninguém.

SAF: Vocês está com 42 anos. Tem uma data, ou um limite, para encerrar a carreira profissional?

YS: Acho que o maior exemplo que eu tenho é o (Carlos) Burle. É um cara que saiu quando ele estava no topo, acho que tinha condições de disputar qualquer título em qualquer evento o mundo. Ele estava com 50 e saiu por cima. Então, não gosto de colocar datas e nem expectativas... Sempre falo para minha esposa e meus filhos: enquanto eu estiver lá, me divertindo e puxando os meus limites, eu quero estar lá. No dia que eu achar que não dá mais, sentir um medo que não dá para controlar, eu paro e vou entrar mais nos bastidores, tentar ajudar o esporte, que me deu tanto, a crescer mais.

SAF: Você ainda tem algum sonho para realizar?

YS: Acho que uma das minhas metas é poder pegar um swell épico em Nazaré. Fui lá algumas vezes, peguei umas ondas, mas ainda não foi a que eu gostaria. Acho que em Jaws já peguei a onda que sempre sonhei. Então, agora, minha meta é essa: passar um pouco mais de tempo em Portugal e, de repente, pegar uma bomba lá na remada ou mesmo em um dia gigante de tow-in, tentar fazer uma linha diferente. Vejo que a galera lá pega umas ondas grandes, mas ainda têm um pouquinho para evoluir nas linhas que você faz na onda. Não sei se vou conseguir, mas queria ir lá e fazer uma linha diferente - de tow-in ou uma bomba gigante na remada.

Soledade e Kai Lenny / Matt Brandt / Facebook

Soledade e Kai Lenny / Matt Brandt / Facebook

SAF: Deixando o surfe um pouco de lado, como estão os restaurantes e sua vida em Maui?

YS: Nesses últimos dois anos, por algum motivo, até por não ter dado essas ondas gigantes por aqui, eu acabei focando nos restaurantes. Sempre gosto de puxar os meus limites e, consequentemente, estou puxando nos negócios. Os restaurantes estão indo muito bem aqui. Estamos abrindo um novo em Waikiki, em Oahu. O mais novo que abrimos aqui virou marco em um ano e meio, está bombando. Graças a Deus as coisas vão bem. Ano passado recebemos o título de empresário do ano no estado do Havaí, eu com minha sócia. Começamos com um restaurante pequenininho, que tinha nove empregados. Agora estou com cinco, e quase 150 empregados. Nestes últimos dois anos houve uma evolução muito grande.

SAF: Ainda pensa em voltar para o Brasil?

YS: Bom, para morar, eu não sei. Meu sonho, desde que eu mudei para cá, com 18 anos, era sempre poder passar o inverno aqui e o inverno lá, sempre pegando as ondas grandes (risos). Então, se eu pudesse passar seis ou oito meses aqui e quatro lá, seria meu sonho de vida. Mas, com a família, os negócios evoluindo, vejo que esse sonho está cada vez mais difícil.

SAF: E você mantém ainda algum negócio no Brasil?

YS: Já tive bar, restaurantes, mas, ultimamente, resolvi focar só aqui. Estava um pouco focado, não só na minha carreira profissional do surfe, mas também nos restaurantes e acabei deixando um pouco de lado os negócios no Brasil. A única coisa que eu tenho lá, é o meu relacionamento com o meu patrocinador, a Mahalo, que é uma empresa que me apoia desde criança, desde os 12 anos de idade. Eles continuam crescendo bastante no Brasil, e eu gostaria muito de retribuir todo apoio que eles me deram todos esses anos. Se eu pudesse estar lá, junto com eles, dando uma força, seria algo que eu gostaria de fazer ainda na minha vida.

Campeão em Nazaré, Chumbo sonha com XXL e título mundial de ondas gigantes

WSL / ANTOINE JUSTES

WSL / ANTOINE JUSTES

Por Guilherme Dorini

“Expectativa baixa, objetivo alto e trabalho constante. Assim, a gente chega longe”. Esse é o ditado que guia a jovem, mas já muito bem sucedida, carreira de Lucas Chianca, o Chumbo, grande revelação brasileira no surfe de ondas gigantes. Treinado por Carlos Burle, o carioca de apenas 22 anos roubou a cena no começo deste ano ao faturar o Nazaré Challenge, última etapa do Mundial de Ondas Gigantes (BWT), e terminar a temporada na quinta posição geral.

Chumbo conversou com o Série ao Fundo para contar todos os detalhes de sua promissora carreira: desde os tempos em que trabalhava no Havaí para pagar suas viagens para Jaws, até o momento que se conectou com Burle e decidiu apostar todas as suas fichas no surfe de ondas gigantes – onde sonha se tornar campeão mundial.

“Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré. Foi aí que nos  conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour (BWT), esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos pela Performance of the Year”, contou ao SAF.

Além do BWT, Lucas revelou que disputará algumas etapas da divisão de acesso do surfe mundial de pranchinha (WQS) e que está ansioso para a premiação do Big Wave Awards, que acontece neste mês. O brasileiro concorre com quatro ondas na categoria "Maior Onda na Remada" e uma na "Melhor Performance Masculina".

Confira o bate-papo na íntegra com Lucas “Chumbo” Chianca:

Série ao Fundo: Como foi seu começo no surfe?

Lucas Chianca: Eu comecei a surfar em Saquarema (RJ), com meu pai, quando eu tinha três anos de idade. Eu era bem molequinho, só por esporte mesmo. Foi uma coisa que foi crescendo, competindo no amador, até os 17 anos, quando virei profissional. Sempre fui pelo caminho do surfe de ondas pequenas, mas me destacava mais nos mares de ondas grandes. Quando eu fiz 18 anos, e tive aquela pequena independência dos pais, fui para Jaws (HAV) pela primeira vez... Foi aí que foi embalando. Depois dessa viagem eu comecei a gostar mais [de ondas gigantes].

SAF: A ideia inicial era de virar profissional na pranchinha, né? Como era isso na sua cabeça?

LC: A ideia inicial antes era disputar WQS, entrar para o WCT e ser campeão mundial. Só que eu sempre gostei mais de onda grande, tinha um apego maior quando o mar subia... Eu ficava mais confortável, mais atirado... E deu certo! Acho que agora mudei para o esporte certo. Nas ondas pequenas, quando o WQS estava com onda muito pequena, acabava me atrapalhado um pouquinho, não era meu forte... Tem aqueles "maroleiros ratos" sempre (risos).

SAF: O desgaste que é disputar o WQS, além da parte financeira, também pesou na sua decisão?

LC: Com certeza. Desde quando comecei o WQS, eu já não tinha patrocínio. Então, era sempre do meu bolso, meu pai me ajudando... Era muito difícil manter isso e dar uns tiros para Big Wave... Todo dinheiro que eu fazia no WQS, eu guardava e investia em uma trip de onda grande, que era o que eu gostava. Comecei a fazer vários WQS, fui melhorando, fiz um ano bom, lucrei um dinheirinho e fui para Mavericks (EUA). Lá eu me apaixonei de uma forma... Soube que queria aquilo para mim, mas não sabia qual era o caminho para entrar no Big Wave Tour, como fazer... Foi aí que meu tio, Marcos Monteiro, que me levou em Mavericks pela primeira vez, me conectou com o Carlos Burle, que é meu treinador agora. Trilhamos um caminho e deu um pouco certo.

SAF: E que ano foi essa "virada de chave"?

LC: Foi em outubro de 2016. Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré (Portugual). Meu tio não conseguiu ir junto dessa vez, mas eu fui com o Burle. Foi aí que conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour [de big wave], esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos entrar no Big Wave World Tour pela Performance of the Year.

SAF: E você lembra como foram as primeiras experiências em ondas grandes?

LC: Na verdade, eu sempre gostei muito. Desde moleque eu ia para o Havaí, com 14 anos, já surfava Waimea grande, 18 pés, 20 pés... Sempre quis ir para Jaws. No primeiro ano, meu pai não tinha deixado, no segundo não deixou de novo... Aí no terceiro ano, eu já tinha 18 anos, trabalhei no Havaí, comprei minha primeira passagem para Jaws e fui ver a realidade, né? Waimea é uma onda bizarra, mas não é igual Jaws, Mavericks, Nazaré, Puerto Escondido... Essas ondas que são power. Waimea é mais soft assim, abraça a gente, é mais fácil. Na minha primeira vez em Jaws, já peguei um swell gigante, já consegui pegar algumas ondas e me dar bem no pico. Fiquei muito feliz, já me apaixonei pela parada. Dropar uma onda gigante foi a coisa mais feliz da minha vida. E queria repetir isso. Continuei trabalhando no Havaí, indo para Jaws em todo swell, com uma prancha só, e deu certo. Fiz a temporada, três Jaws... Levei até meu irmão nessa temporada, ele tinha 14 anos, pegou uma bomba também...

SAF: Você trabalhava com o que no Havaí para conseguir esse dinheiro?

LC: No Havaí, eu trabalhava de pedreiro, jardineiro e fazendo comida em um food truck. E aí, eu fiz uma grana, consegui juntar um dinheiro forte para viajar três vezes para Jaws, comprar duas pranchas...

SAF: E você ficou nessa por quanto tempo?

LC: Fiz quatro meses de trabalho.

SAF: Mas valeu a pena, né?

LC: Valeu, valeu muito a pena. Foi o pontapé.

SAF: E como é a vida de um big rider? Viver em torno de um swell...

LC: A vida de big rider não é fácil, né. É mais ou menos isso aí mesmo. A gente tem que estar 365 dias do ano pronto para, quando acontecer [um swell], estar 100% pronto para o que vier. Só sabemos dos swells uns cinco dias antes. Então, temos que ter a vida livre. Não posso marcar um eveto para daqui um mês, nunca sei se vou estar daqui um mês no Brasil, ou na Austrália... Nossa vida não é tão um mar de rosas que tudo mundo pensa. A gente viaja, vai para uns lugares irados, pega várias ondas, mas temos que estar prontos para viajar em qualquer momento e circunstância - dormindo em aeroporto, fazendo escalas gigantes... Temos que chegar naquela hora, naquele momento e pegar a hora boa do mar.

SAF: Já deve ter rolado várias frustrações também...

LC: Isso é uma coisa que temos que estar dispostos, pode acontecer. Sempre muda um pouquinho, o vento sempre muda, o swell muda, aumenta, diminui... É a mãe natureza, ela que manda, temos que estar sempre abertos para o que ela vai entregar para a gente.

SAF: Vamos falar da parte financeira. A conta está fechando?

LC: A conta ainda não fecha, a gente investe mais do que ganha, mas é meu sonho, o esporte que amo, meu trabalho. Vou continuar investindo, tenho recebido uns bons frutos... Deu para dar uma respirada depois que ganhei o Nazaré Challenge, para começar esse ano... Se não fosse isso, a gente ia fechar a conta no negativo total esse último ano.

SAF: O apoio é diferente para quem está no big wave ou na pranchinha?

LC: Na verdade, é o mesmo apoio, estou aberto aos patrocínios, tenho dois que me ajudam muito, que é a Blu-X e o Spoleto, que são os que me ajudam financeiramente. Também tenho outros co-patrocínios. Spoleto bancou meu tour esse último ano, a Blu-X estamos em uma campanha com eles, temos trabalho legal juntos... Mas as marcas em si não estão muito felizes com a economia e não sei por que não estão patrocinando a gente, mas vamos esperar, vai que uma hora da certo.

SAF: E vencer a etapa em Nazaré foi o auge...

LC: Pô, Nazaré foi incrível, parece que nem aconteceu. Foi um sonho realizado. Foi muito trabalho. Eu e o Burle trabalhamos muito para isso, investimos pesado, queríamos muito que isso acontecesse. No ano passado, tive minha lesão no início, que foi uma coisa que me bloqueou bastante. Quebrei o perônio e rompi dois ligamentos do tornozelo... Fiquei quatro meses em reabilitação, mas depois de dois meses já estava de pé, surfando de novo... Meu objetivo já era ser campeão mundial, bater de frente no tour, conseguir um espaço lá dentro... Mas Deus sabe o que faz, ele que escolhe. Foi bom para mim [a lesão], um aprendizado e amadurecimento gigante para mim. Passei por cima com tudo. Perdi a etapa de Puerto Escondido, que era a etapa que eu sonhava em competir, e talvez esse ano nem role, mas fui com tudo para as outras etapas. A primeira etapa foi em Jaws, tive um desempenho muito bom, mas calhei de cair em uma superheat, a segunda semifinal, só com notas altas, fiquei em quinto e terminei em 9º no geral. Estava treinando muito, queria minha reclassificação para o BWT, precisava de uma final e deu certo. Fui para Nazaré com sangue no olhos, já tinha gastado quatro vezes em Nazaré, estava pronto, sabia tudo que ia acontecer naquele evento. Cheguei muito bem, com o Burle, foi um sucesso, estava confortável e seguro para tudo que viesse. Acho que ganhei por isso. Tive muita ajuda de todo mundo para realizar meu sonho e consegui colocar o Brasil de novo no lugar mais alto do pódio.

SAF: E depois ainda teve o Capítulo Perfeito...

LC: No Capítulo Perfeito, mais uma vez a minha experiência ali em Nazaré me deixou muito a vontade. Muito tempo que eu não encostava na prancha pequena, só surfando de gunzeira, de prancha de town in... Quando encostei, foi dois dias antes do evento para treinar. Consegui colocar a prancha no pé, me entender... Nazaré conheço bastante aquela onda, consegui me posicionar no campeonato inteiro... Que pena que não ganhei, estava com tudo para ganhar, só não consegui achar as ondas ali no final, mar já estava bem ruim. Tudo que eu colhi esse ano foi muito bom, estou muito grato. Espero que logo mais apareça alguma marca para me patrocinar.

SAF: Nós vimos você atacando as ondas em Nazaré. Já é uma evolução no Big Wave?

LC: Acho que a nova geração tem vindo com uma cabeça um pouco diferente. Como batemos muito de frente no WQS, competição, a molecada treinando muito para ser WCT... Quando descobre a paixão pelas ondas gigantes, acabamos atuando diferente. Acho que a "velha geração" - eles são novos ainda e botam para fuder com a gente ainda -, abriram as portas, mas hoje estamos chegando com outra pegada, outra performance, outra visão da onda. Não queremos só sobreviver na onda, queremos performar e conseguir fazer o nosso melhor na onda, né?

SAF: E como é o relacionamento com o Burle?

LC: Eu dou graças a Deus por ter o Burle do meu lado. Acho que foi essencial, um ponto alto na minha carreira. Com ele, trabalhamos minha cabeça melhor para competir nas ondas gigantes, me adaptar ao novo mundo das ondas gigantes. Eu falo que ele é a experiência e eu sou o talento e o cavalo. Ele coloca a rédea e o cavalo está dando certo, é um cavalo de raça, que é só adestrar e colocar certinho. Ele é como se fosse uma família para mim. Agradeço ao meu tio Marquinhos, que foi quem nos conectou. O Burle mudou minha cabeça, minha vida. Não só a minha, mas da minha família. Pensamos diferente. Foi muito importante na minha vida. Não só conhecer ele, mas trabalhar com ele. É incrível. É uma gratidão eterna.

SAF: E quais são os planos e objetivos para o futuro?

LC: Se a gente for falar de futuro próximo, estou indo para o XXL em abril, dia 24 é a festa, tenho muitas ondas concorrendo, conto com a torcida de todo mundo. É difícil ganhar, mas estamos bem, concorrendo com ondas muito boas. Futuramente, é continuar trabalhando, produzindo conteúdo, esperando os eventos de onda grandes, esperando as ondulações chegarem a algum lugar do mundo para ir atrás delas. Esse ano vou correr alguns WQSs também, vou tentar investir para não ficar muito parado, manter um ritmo de competição. Essas são minhas metas. Quero muito levar o Brasil para o pódio, ser campeão mundial e espero que isso seja breve.

SAF: E disputar o WQS é só para manter o ritmo mesmo?

LC: Acho que é só para manter um ritmo de competição, uma estratégia minha, não conta para ninguém (risos). [É bom para] manter aquele ritmo, aquele surfe afiado e aquela adrenalina da competição sempre em dia, sabe? Aquele milésimo de segundo que você pensa rápido na competição muda tudo.

SAF: Mas ainda existe a chance de mudar sua cabeça e tentar entrar para o WCT?

LC: Isso é uma ideia longe, nem passa pela minha cabeça agora. Vou competir WQS, se eu passar baterias, vou fazer pontos, se ganhar muitos pontos, vou classificar para os Primes... Quero escolher bastante as etapas que quero competir, para ir em ondas boas, que consiga surfar melhor. Então, não vai ser um investimento total, full time, no WQS, mas vou dar os tiros certos nas etapas boas para tentar resultados bons. E, talvez, algum dia, se eu entrar no Prime, acho que podemos pensar mais no WCT. Mas seu sonho sempre foi ser campeão mundial e é cada vez maior na disputa de ondas grandes, é o que mais amo na vida nesse momento, eu acho.

Promessa brasileira, Mateus Herdy foca no WQS e já traça planos por WCT

Por Guilherme Dorini

Considerado uma das maiores revelações dos últimos anos, Mateus Herdy chega com tudo para sua primeira temporada completa na divisão de acesso do surfe mundial (WQS). Com apenas 17 anos, o brasileiro de Florianópolis terá a oportunidade de disputar pela primeira vez as principais etapas do WQS, e já com um claro objetivo: entrar para o Circuito Mundial de Surfe (WCT) no máximo em 2020 – isso se já não conseguir uma vaga para o próximo ano.

Mateus Herdy / Foto: Divulgação

Mateus Herdy / Foto: Divulgação

Depois de participar as duas maiores etapas da perna australiana do WQS, em Newcastle e Sydney, ambas valendo 6 mil pontos, Herdy, que ainda estava na Oceania, conversou com o Série ao Fundo para falar um pouco da sua carreira, amadurecimento profissional e seus objetivos e metas para essa temporada.

“Minha meta é entrar, se não for esse ano, no ano que vem. Quero entrar o mais rápido que eu posso. E, quando entrar, não quero sair. Sou novo, meu corpo ainda está desenvolvendo, ainda estou crescendo... Já troquei uma ideia com a Quiksilver, que é meu parceiro novo, para fazer trips [viagens] para ganhar mais experiência. Se eu não entrar esse ano, será um ano de preparação, mais experiência e força. Se eu treinar e dar o meu melhor, acredito que tudo vai acontecer”, disse ao SAF.

Filho do big rider Alexandre Herdy e sobrinho do ex-top do WCT Guilherme Herdy, Mateus já está acostumado com competições, já que disputou sua primeira etapa do WQS com apenas 14 anos de idade. Para a sequência de sua carreira, seus principais investimentos vêm da Red Bull, patrocinador de bico da prancha e boné, e da Quiksilver, acordo recém-fechado para borda e roupas diárias.

Confira o bate-papo completo com Mateus Herdy:

Série ao Fundo: Você já vem de uma família de surfistas. Acredito que escolher por essa profissão foi um caminho natural para você. Como foi isso dentro da sua casa?

Mateus Herdy: Em casa foi muito tranquilo. Minha família sempre me apoiou bastante. E hoje em dia existe bem menos preconceito com surfistas do que tinha antigamente. Na escola, a maioria dos professores gostava bastante, nunca tive problema quanto a isso, apesar de alguns não entenderem muito bem por que eu faltava e uma galera ainda pensava que era só curtição... Mas nem se compara com a época em que meu tio competia... Hoje temos o OFF, o Série ao Fundo... A mídia está muito maior... Tem o Gabriel (Medina), que mostrou que o surfe não é esporte de vagabundo.

SAF: Você está só com 17 anos, mas já compete desde criança. Como foi conciliar a carreira com os estudos?

MH: Então, eu tive que largar a escola. Foi uma conversa que tive... A parte da família do meu pai, todo mundo é médico - foi bem difícil convencer eles. No Brasil, existe essa lei que não pode ter "home school", não posso fazer depois. Para eu começar a fazer o WQS, e ir atrás dos meus sonhos, tive que largar a escola. Com 18 anos, eu vou poder fazer um supletivo para terminar. Então, eu parei no segundo ano do ensino médio.

SAF: Sua trajetória no WQS começou muito cedo, né?

MH: Meu primeiro WQS (etapa) foi quando tinha 14 anos, na Argentina, fiz oitavas de final, não esperava, me dei muito bem, passei umas cinco baterias. Foi muito bom para o primeiro WQS. Depois, continuei nos amadores, fiz bons resultados nos Pro Juniors, e ano passado foi quando decidi começar mesmo. De 15 para 16 anos que comecei a focar... No meio do ano que consegui virar Prime – fui para Cascais, Triple Crown... Esse ano é, de fato, o primeiro ano que estou competindo ele inteiro. Com a pontuação adquirida, posso disputar todas as etapas que não pude competir no ano passado.

Mateus Herdy no QS de Mar Del Plata (ARG). / Foto: Beto Oviedo

Mateus Herdy no QS de Mar Del Plata (ARG). / Foto: Beto Oviedo

SAF: Quais são as principais dificuldades neste começo de WQS?

MH: A galera meio que reclama mais, mas eu, particularmente, não tenho problema com isso, que é o número de eventos. Estamos sempre viajando. Temos que ir para os eventos 3 mil, não são só os 6 mil ou 10 mil... Eu, que estou no início, estou atrás de milhas, eu ainda não tenho tantas quanto, por exemplo, o Thiago Camarão, que está competindo há tempos... Eles já viajam mais de primeira classe, e eu ainda no canil (risos), lá atrás... Pegar avião cansa, passar a noite em aeroporto... Essa viagem mesmo para a Austrália, fiz: Florianópolis, Rio de Janeiro, Miami, Los Angeles e Sydney. Cheguei completamente acabado, três dias de viagem... Você não come, não dorme bem... Gostaria mais se o WQS fosse dividido em pernas... Ano passado, por exemplo, fui para uma etapa no Japão, gastei a maior grana, perdi de cara e tive que voltar para casa. Poderia ser um pouquinho mais organizado.

SAF: Deve-se gastar muito dinheiro também. A conta fecha?

MH: Fechei com a Quiksilver de borda agora, meu patrocinador de roupas normais, e de bico fechei com a Red Bull, que também está no boné... Eu sou novo, tem bastante investimento em cima de mim... Eu estou bem, posso viajar, fazer o que quiser, a conta está fechando. Mas, no Brasil, na nossa idade, acho que só eu e o Samuel Pupo que temos essas condições. A realidade é que a maioria da galera está sofrendo para viajar três vezes no ano. Moleque da nossa idade, que já competiu e era para estar aqui competindo com a gente, não tem condições financeiras... E ainda tem uma galera do WQS que precisa ficar na casa de amigo...

SAF: Quem costuma te acompanhar nas viagens?

MH: Até o ano passado, eu viajei algumas vezes com o Ian Tavares, um amigo meu que filma e faz um bom trabalho. Mas a maior parte do ano eu viajei sozinho, totalmente sozinho... Ano passado eu gastei muito dinheiro na perna da Austrália, então, no resto do ano, tive que ir sozinho e guardar um pouco. Esse ano, fiz esses eventos aqui na Austrália com meu tio, Guilherme (Herdy), que tem bastante experiência... Até hoje, a maioria das viagens foi sozinho.

SAF: Quais são suas metas profissionais? Quando planeja entrar para o WCT?

MH: Eu tenho minhas metas, né? Acho que todo mundo tem... Eu quero muito entrar, acredito que vou entrar... Minha meta é entrar, se não for esse ano, no ano que vem. Quero entrar o mais rápido que eu posso, e, quando entrar, não quero sair. Sou novo, meu corpo ainda está desenvolvendo, ainda estou crescendo... Já troquei uma ideia com a Quiksilver, que é meu parceiro novo, para fazer trips para esses lugares tipo Fiji, Teahupoo, para ganhar mais experiência. Se eu não entrar esse ano, será um ano de preparação, mais experiência, força e para aprender ainda mais em lugares em que o Brasil não tem oportunidade de ter. Se eu treinar e der o meu melhor, acredito que tudo vai acontecer.

SAF: Para onde mais gostaria de ir?

MH: Eu quero ir para Fiji, Teahupoo... Quero ser o tipo de cara que é bom em tudo, quero ser o mais completo possível, sei que preciso melhorar, perder o medo de ondas gigantes, criar técnica em tubo para os dois lados... Quero muito ir para o México, que eu ainda não fui, é um sonho de criança ver aquelas direitas, ainda mais que sou regular. Tem muito lugar no mundo que eu acho que tem altas ondas e ainda não fui. Fui para a África do Sul, fiquei 45 dias lá, e não surfei J-Bay!

SAF: Você citou muitas ondas pesadas, tubulares... Acredita que é nessa característica que ainda precisa melhorar?

MH: Eu diria que sim. Lá em Floripa, temos tubos algumas vezes, mas não se compara com os havaianos (risos)... Particularmente, o que acho que falta no meu surfe, mas é mais questão de tempo, é o power, ganhar força, manobras que os juízes dão muita nota, e os tubos... O problema é que não temos tubo nenhum no WQS, sabe? Então, se falar para WQS, me falta o power, mas para WCT... Como é que vou ganhar do John John em Teahupoo se eu nunca fui para lá e se não entubo?

SAF: E das etapas do WQS? Ansioso para alguma em especial?

MH: Sri Lanka é uma onda que eles estão tentando, não é certo que vai rolar, mas dizem que é uma direita muito boa. E uma que não vejo a hora de ir é o US Open.

SAF: Além do seu tio e seu pai, quais são suas inspirações no surfe?

MH: Eu gosto muito de ver todos os surfistas que são completos. Para mim, um cara que é muito completo é o Julian Wilson, que sempre cito... Ele surfe de backside, frontside, da aéreo, surfa muito de borda, pega tubo para os dois lados. É muito completo em relação ao surfe, talvez não tão competitivo quanto o Gabriel (Medina) e o John (John Florence), mas ele é muito completo. Tem também o Gabriel e o John John... São esses caras que estou acompanhando bastante.

SAF: E daqueles que ainda estão brigando por um espaço?

MH: Vitinho Bernardo está sempre provando, o Deivid (Silva), que ganhou aqui agora, é um cara muito completo, você vê ele em umas condições... Jogando muita água, fora do normal. Tem o Samuel (Pupo), sem comentários, surfa muito. Tem o João Chumbinho. Tem um cara que está vindo do Brasil que acho que vai destruir todo mundo é o Eduardo Motta, fiz a trip com ele para Mentawai... Entre os mais novos, ele destruiu: pega tubo, quebra, já falei para ele vir para o WQS. Tem muita gente na verdade, os brasileiros surfam muito. Todos são meus parceiros. O Yago (Dora) já é WCT, né? Mas é impossível não falar dele. Toda vez que eu estou surfando, e estou rendendo, eu penso: 'o Yago teria feito o dobro disso'. Toda vez que viajei com ele, ele rende, não cai [de rendimento] nunca.