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Nicole Pacelli rejeita rótulo de “musa”, relembra trajetória e mar assustador

CAMPEÃ MUNDIAL DE STAND UP PADDLE ACHA RUIM SER ROTULADA E RECORDA DE QUANDO NÃO CAIU NO HAVAÍ: "ATÉ O KELLY DESISTIU"

Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Por Guilherme Dorini

"A mulher tem que ser mais que um rosto bonito". É assim que pensa Nicole Pacelli, tratada como "musa do surfe" no começo da carreira, rótulo que ela faz questão de afastar a cada conquista e feito realizado. Aos 26 anos, a brasileira, criada em uma família de surfistas, já foi campeã mundial de stand up paddle, finalista do Big Wave Awards e sonha em entrar no Mundial de Ondas Gigantes (BWT) da World Surf League.

Em um bate-papo com o Série ao Fundo, Nicole lembrou os primeiros passos de sua carreira no esporte, como fez para decidir entre a faculdade ou se profissionalizar no esporte, a transição para o SUP, a primeira queda em ondas gigantes, momento do surfe feminino e os piores, e melhores, momentos dentro do mar. 

CONFIRA O BATE-PAPO COMPLETO COM NICOLE PACELLI:

Série ao Fundo: Como foi seu começo no surfe?

Nicole Pacelli: Eu comecei a surfar de pranchinha, quando eu era bem pequena. Nem lembro, exatamente, da primeira vez que subi em uma prancha. O problema é que meus pais se separaram e eu acabei me mudando para São Paulo. Então, vive a maior parte na capital, mas vindo todo final de semana para a praia. Tinha aquela coisa: queria estar na água, mas não era algo que podia fazer todos os dias. Acho que isso fez aumentar minha paixão.

Reprodução/Instagram

Reprodução/Instagram

SAF: E como foi virar profissional?

NP: Eu não sabia se seria profissional ou não. Eu achava que não, na verdade. Como é possível alguém ser surfista profissional vivendo em São Paulo? (risos)

SAF: Como foi a transição da pranchinha para o stand up paddle?

NP: Foi quando meu pai trouxe uma prancha de stand up paddle para o Brasil. Eu deveria ter uns 16 anos. Ainda nem tinha no Brasil. Foi meio que um desafio pegar uma onda com aquela prancha. E falei que ficaria boa nisso. E foi assim. Comecei a competir, mas tinha pouca gente, então competia com os homens. E ainda morava em São Paulo.

SAF: Como foi conciliar estudos com o surfe?

NP: Eu estava surfando bem de stand up, já gostava de ondas grandes... Eu lembro bem, eu entrei na Universidade de São Paulo (USP) e consegui um patrocínio. Meu pai sempre me apoiou, mas sempre tinha aquele pé atrás, porque fica de surfista não tem as coisas garantidas, né? Então fiz Educação Física. Eu queria alguma coisa que, mais para frente, pudesse relacionar com o surfe.

SAF: E quando você começou a viajar pelo surfe?

NP: Teve uma época que eu queria ir muito para o Havaí, em 2011, e falei pros meu pais: "passei na faculdade, posso ir para lá?" E fui no final do ano. Chegando lá, eu com 19 anos, não via muitas meninas em mares grandes. Era eu e minha irmã. Nunca tinha feito uma viagem de surfe. Fomos para Mauí e já ia quebrar Jaws.

SAF: E como foi a primeira caída?

NP: Era época do tow-in ainda, só tinha um cara remando, que eu nem sabia quem era. Depois fui descobrir quem era, era o Márcio Freire (risos). Meu pai foi quem me puxou na primeira onda, foi irado, uma das melhores sensações da minha vida. Uma sensação muito especial. Foi então que fui perceber que, talvez, eu levava jeito para a coisa.

SAF: Você voltou para o Brasil e começou a competir?

NP: Voltei para o Brasil querendo ainda mais ser profissional, mas na época não tinha Mundial de Stand Up. Então, no outro ano, em Sunset, corri um campeonato com os homens, porque não tinha para mulheres. E acabei indo bem. Todos os caras que eu admirava vieram falar comigo. Foi uma realização muito grande. Depois anunciaram que no próximo ano, em 2013, já teria a primeira edição do feminino.

SAF: E já veio seu primeiro título mundial, né?

NP: Isso. Eu estava na faculdade, continuei cursando, não sabia direito o que seria. Mas já era patrocinada pela Roxy. Mas era meu ano, era o último da faculdade e precisava decidir. Então decidi trancar, já tinha bombado em algumas matérias por faltas por conta das viagens. Foi quando fui campeã mundial, competição da ISA.

SAF: Acha que as pessoas tendem a valorizar menos seu título por não ser da WSL?

NP: Muito. A WSL é muito valorizada hoje em dia. Sempre que falo do meu campeonato me perguntam isso: 'ah, mas é da mesma organização do Medina?" Eles têm muito mais mídia, visibilidade. Acho que as pessoas nem sabem muito das outras organizações. Só quem acompanha mesmo o esporte.

SAF: Você já foi finalista do Big Wave Awards e sonha em entrar no Big Wate Tour. Mas teve algum dia que olhou o mar gigante, sentiu medo e preferiu não cair?

Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Hugo Silva/Red Bull Content Pool

NP: Eu lembro de dois dias. Teve um dia que pensei 'já era'. Era uma onda que quebrava no meio do mar, em Oahu. Eu nunca tinha caído em um mar tão grande e 'sozinha', estava só eu e o Lapinho. Estava demorando muito e, como você não vê a praia, não tem ponto de referência, não sabe se está no lugar certo... Você perde a noção depois de 30 minutos sem onda. De repente, veio uma série, e eu estava no pior lugar. Devia estar uns 15 a 18 pés, buraco... Tomei todas na cabeça... Era meu começo, depois da terceira, achei que ia morrer. Tive um sentimento estranho, que nunca tinha tido. Depois de tudo, voltei para o fundo e vi que não dava. Foi a primeira vez que tinha tomado uma série assim, que tive medo. Às vezes é bom acontecer. Na hora eu fiquei desesperada, mas não aconteceu nada. Serviu para me mostrar que estava preparada.

SAF: E o outro?

NP: Foi no último El Niño que teve, quando rolou o Eddie Aikau em 2016. O mar estava todo torto, horrível. Estava eu e a Silvia (Nabuco) fora do mar. A gente: "e aí, vamos surfar? Vamos." Mas estava fechando a baía de dez em dez minutos. A galera que estava dentro só estava tomando vaca, poucas pessoas, só os cascas grossas. Quando falamos "vamos", veio a maior série do dia, o Kelly (Slater) estava tentando entrar, todo mundo foi varrido. Ele tentou de novo, não entrou! O Kelly, que é o Kelly, teve que sair pelas pedras, lá fora, desistiu (risos). Depois disso, desistimos e não entramos. (risos) Quando você começa a ficar com dúvida, é melhor não ir.

SAF: Mudando de assunto, como você vê o cenário do surfe feminino no Brasil?

NP: Acho que, quando eu comecei, já 'velha', não tinha campeonato para meninas. Várias estavam perdendo patrocínio... De lá para cá, acho que está melhorando. Temos vários campeonatos só para meninas, várias marcas de coisas femininas investindo e patrocinando, como shampoo, cremes... Acho que é uma boa hora. Todo mundo está ganhando mais visibilidade.

SAF: Você já foi rotulada como “musa do surfe”. Isso te incomoda?

Robert Astley Sparke/Red Bull Content Pool

Robert Astley Sparke/Red Bull Content Pool

NP: Acho isso ruim. Tem várias marcas que focam mais na beleza, em um padrão de beleza... Acho que não pode ser só isso. Tem várias meninas que estão surfando muito, mas estão sem patrocínio. Do outro lado, várias que são 'modelinho', tão ganhando coisas... Ainda mais com Instagram. Algumas sequer surfam, só posam com a prancha, são bonitas e ganham bem. Acho isso ruim. Sempre tento passar a imagem de que a mulher tem que ser mais que um rosto bonito. Não só no surfe, mas em tudo. Em redes sociais, por exemplo, existem umas meninas com milhões de seguidores, mas que não passam nada. É só o corpão, roupa... Por isso sempre tentei passar uma outra imagem. Sempre tentei inspirar outras mulheres de alguma forma. Eu não quero passar essa imagem, de que só tenho patrocínio por fotografar bem.

Na Califa, Phil Rajzman se diz realizado e mostra interesse em BWT: "quem sabe"

Por Guilherme Dorini

Felicidade é uma marca registrada de Phil Rajzman. Na última semana, o surfista conversou com o Série ao Fundo por cerca de uma hora, e mostrou por que é considerado um cara alto astral por todos que o conhecem. Dono de dois títulos mundiais de longboard, Phil se sente realizado após uma longa carreira no surfe – principalmente quando olha para trás e vê por tudo que passou.

“É uma realização, um sentimento de plenitude. Passei por momentos de dificuldade, perdi patrocínio, dei a volta por cima, administrei tudo... É igual o mar, as ondas, acho que nossa vida é feita de altos e baixos. O mais importante foi acreditar nos meus sonhos. Que isso sirva de exemplo para todo mundo. Trabalho fácil não existe. Passei muito perrengue, tive que correr muito atrás... Mas prefiro que tenha sido dessa forma a ter trabalhado e ter ganhado muito dinheiro com uma coisa que eu não curtia fazer ou fazia por amor. A busca pelo que você realmente acredita, os ideias, é fundamental para você ser feliz. Eu me considero uma pessoa muito feliz”, disse Phil ao SAF.

Um dos grandes fatores para toda essa felicidade está na Califórnia, onde Phil mora atualmente (outro sonho realizado) e aproveita melhor seu tempo para evoluir no surfe clássico e trabalhar no desenvolvimento de equipamentos – outra paixão em sua vida.

Com sangue esportivo correndo nas veias – é filho de Bernard Rajzman e Michelle Wollens –, Phil recordou os primeiros passos da carreira, sua curta (e pressionada) experiência no vôlei e o desejo de, cada vez mais, se aventurar em ondas gigantes, demonstrando um interesse em, quem sabe um dia, participar do Big Wave Tour (Mundial de Ondas Gigantes).

Confira o bate-papo completo com Phil Razjman:

Série ao Fundo: Você veio de uma família de atletas, né? Como foi seu começou no esporte?

Phil Rajzman: Por ter nascido em família de atleta, sempre fui incentivado a praticar muitos esportes. Desde a escola, saía da aula e tinha uma atividade física. Meus pais deixavam eu escolher o que queria fazer, mas tinha que ficar pelo menos seis meses naquilo (risos). 'Até os 13, 14 anos, você pode fazer o que quiser. Mas, se quiser ser atleta, vai ter que começar escolher e focar', ouvia isso desde criança.

SAF: E a história no surfe?

PR: O surfe começou bem novo, como meu pai era do Rio de Janeiro também, tinha aquela cultura de praia, ele sempre teve muita intimidade com a praia, o mar... Começou a me levar novinho para dar os primeiros mergulhos, dali surgiu minha relação com o mar.

SAF: Rolou algum tipo de "pressão" para você seguir uma carreira no vôlei?

PR: Eu cheguei a jogar vôlei, lógico. Eu jogava na praia, para me divertir. Aí resolvi tentar ir jogar em algum clube. Comecei a ver que começava a juntar torcida atrás: 'jornada, jornada!'. (risos). Pensava: 'calma, deixa eu aprender dar manchete, toque para depois ir para o jornada' (risos). Existia uma pressão externa muito grande, era o oposto do que eu sentia quando estava dentro da água surfando: era uma paz, uma forma de meditar. Dentro da água era quando meus problemas se organizavam e meio que se resolviam. Me sentia em harmonia.

SAF: E quando você falou para seus pais que seguiria carreira no surfe? Como eles receberam isso?

Bernard e Phil Rajzman / Arquivo pessoal

Bernard e Phil Rajzman / Arquivo pessoal

PR: Fui acontecendo naturalmente. Meu primeiro patrocinador foi o Pepê, que meu pai frequentava sempre ali. Tinha seis anos, saía da água e podia comer um lanchão. Isso que me incentivava. Minha mãe ia de manhã, e meu pai a tarde. Então eu passava os dois períodos no mar. A partir daí, com sete anos, comecei na escolhinha do Rico, quando comecei a competir e ter experiência em campeonatos. Com 13 anos recebia a primeira proposta, de fato, de patrocínio. Então, a coisa meio que ficou mais séria. Meu pai falou: 'perdi meu pai nessa idade, precisa aprender a ser responsável. A partir de agora vai ter a oportunidade de receber um salário...' Era pouco, mas o suficiente para pagar as passagens de ônibus para a escola, as merendas... Foi bom, me ajudou a ter mais responsabilidade quando novo, me ensinou a juntar meu dinheiro - tanto para competir quanto para viajar.

SAF: Quando você viu que o caminho era seguir pelo longboard?

PR: Com 14 anos, mais ou menos, eu comecei a me divertir na competição mais pelo lado do longboard. Sempre curti surfar de longboard quando o mar estava pequeno. Teve uma competição de escolhinhas de surfe em Saquarema (RJ), o Rico ia ser um dos representantes e me convidou para ser o segundo da escola dele. Fiz final com ele, com outras lendas da época e isso me deu muito incentivo. A partir daí, o Rico me deu um longboard usado de presente e novas situações e desafios foram surgindo.

SAF: O longboard ainda precisa quebrar alguma barreira no cenário nacional?

PR: Acho que o surfe de pranchinha chegou no Brasil já como sendo o futuro do esporte. Mas quando você vai para o Havaí, Austrália, Califórnia, você vê que existe uma galera surfando de tudo quanto é jeito: bodyboard, de peito, longboard, pranchinha. Surfe é surfe. Não existe muito essa distinção, todo mundo se diverte. Na minha época, eu cheguei até a sofrer um pouco de preconceito, existia isso de 'longboard é coisa de velho, do passado, de quem está velho e cansado, quer chegar mais rápido na onda' (risos). E acho que era isso que me atraía mais para o longboard. Eu tinha esse desafio de mostrar para os meus amigos que longboard dava para ser radical, que foi quando fui campeão mundial (2007), era um surfe progressivo, eu puxava aéreos, manobras da pranchinha... Aí a situação inverteu, meus amigos que me zuavam começaram a me procurar para pedir pranchar usadas (risos).

SAF: Você foi campeão mundial há 11 anos. Te incomoda de alguma maneira ver o surfe explodindo no Brasil apenas após as conquistas na pranchinha?

PR: De jeito nenhum. Não me incomoda de forma alguma, muito pelo contrário. Acho muito positivo, torço muito para todos os brasileiros. O que eu mais quero é ver o surfe lá em cima. Acho que um sempre ajuda o outro. Meu segundo título mundial, em 2016, talvez não tivesse tido tanta repercussão se não tivesse tido os títulos do (Gabriel) Medina, do (Adriado de Souza) Mineirinho... Só fortalece o esporte.

SAF: Você foi campeão mundial em dois momentos totalmente diferentes se tratando de surfe no Brasil, principalmente sobre divulgação, espaço na mídia... Quais foram as principais diferenças?

PR: Hoje em dia tem a internet que facilita muito, redes sociais, informações chegam bem mais rápido. Mas, na época, a gente teve uma cobertura muito boa também. A grande diferença entre os dois títulos, foi o critério de julgamento utilizado pela WSL. Em 2007, ainda era ASP, tomando um rumo mais progressivo. E, quando a WSL entrou, eles colocaram novos critérios de julgamento, colocando o longboard mais no lado clássico, justamente para diferenciar a modalidade da pranchinha. Evitar um conflito de patrocinadores ou qualquer tipo de situação.

SAF: E como foi essa adaptação?

PR: Eu, como atleta, imediatamente entendi aquilo ali. Muitos atletas bateram de frente, reclamaram... Clássico e progressivo é a evolução natural do esporte, você tem equipamentos cada vez mais leves... Mas eu entendi o lado da WSL. Essas eram as regras da empresa, se você não quiser cumprir, vão te botar para fora. Apesar de não ser favorável para mim, procurei evoluir e modificar. Fui uma oportunidade para vir para a Califórnia e treinar isso. Foi uma motivação que faltava. Em 2014 já foi vice-campeão mundial já com esses novos critérios. Isso me deu ainda mais motivação. E foi quando sofri outro "preconceito" em 2016 (ano do título mundial), eles falavam: 'agora já era para o Phil, agora ele não tem mais chance, no surfe clássico ainda...'. E meu pai sempre falava que gostava da torcida contra, dava mais incentivo. Isso, no fundo, quem pensou dessa forma, mesmo inconsciente, me deu essa força. É um sentimento de plenitude.

SAF: E você ainda tem uma queda pelas ondas gigantes, né? Passa pela sua cabeça tentar aparecer em algum evento do Big Wave tour?

PR: O surfe de ondas grandes sempre foi uma coisa que eu gostei muito. Minhas primeiras experiências no Havaí foram quando eu vi onda grande de verdade na minha frente (risos). Sempre tive uma atração pelas ondas grandes. A adrenalina, velocidade, fator risco... Dentro do mar, você percebe que começa a se tornar um pouco menos agressivo o crowd, e sim amoroso. Todo mundo sorrindo... No fundo, todo mundo sabe de que depende de todo mundo ali. Acho isso muito interessante. O mar está gigante e tem alguém ali do lado para compartilhar, eu sei que eu posso contar com ele e ele sabe que pode contar comigo se alguma coisa acontecer. O que sempre coloquei em prioridade é questão da segurança. Sempre gostei de desafios, mas sempre pensei nas consequências. Atualmente, tenho cada vez mais buscado isso. Principalmente porque está dando visibilidade, está crescendo, que faço por amor. Tenho desenvolvido longboards para surfar essas ondas. Tem sido um desafio divertido. Ainda não sei quando vou conseguir fazer um surfe clássico em ondas gigantes, mas só de você estar sentado no canal, vendo aquelas montanhas... Me sinto atraído por isso. Quem sabe não pinta uma oportunidade de entrar no BWT também.

Phil Rajzman em Jaws / Crédito: Sigal Petersen

Phil Rajzman em Jaws / Crédito: Sigal Petersen

SAF: Você ressaltou sobre segurança. Onda gigante não é para qualquer um, né?

PR: Ali não tem marinheiro de primeira viagem, não tem ninguém se aventurando pela primeira vez para surfar. É muita experiência dentro da água. Só de estar presente você já aprende muito. Só por ver as atitudes das pessoas. E percebe também como até experientes tomam atitudes erradas, isso legal porque faz você colocar os pés no chão, para não deixar subir muito na cabeça e dropar qualquer onda. É realmente muito perigoso.

SAF: E sua mudança para a Califórnia foi por conta da proximidade de picos de ondas gigantes também?

PR: Em 2006, comecei a ser apoiado pela Hobie (Surfboards), é a primeira marca de surfe do mundo. Era um sonho ter o patrocínio e surfar com uma prancha da Hobie. Em 2006, eu tive essa oportunidade e eles começaram a me apoiar. Em 2007, fui campeão mundial com equipamentos deles e comecei a ter um apoio maior, como viagens para a Califórnia. Gosto muito de desenvolver equipamentos, entender como cada prancha funciona, como faço para mesclar pranchas... Isso foi me aproximando daqui. Meu objetivo de estar aqui agora é o desenvolvimento do surfe clássico e de equipamentos - além de estar perto do Havaí e Mavericks. E também teremos duas etapas de uma nova liga, que chama Surf Relik, em Malibu e Trestles. Então o fato de estar aqui facilita bastante, não temos um custo de viagens do Brasil para cá. Além das etapas da WSL, em Papua Nova Guiné e Taiwan. Aqui, é muito mais fácil de chegar nestes pontos, além dos custos serem muito mais baratos. Se você colocar no papel, vale muito mais a pena manter aqui. Oportunidade surgiu e está totalmente ligado com realizações dos meus sonhos.

Phil Rajzman sonha com longboard na Olimpíada: "questão de tempo"

Por Guilherme Dorini

WSL/Tim Hain

WSL/Tim Hain

O mais difícil já aconteceu: o surfe virou, de fato, um esporte olímpico. Mas existe alguma possibilidade da modalidade ir além na competição esportiva mais importante do mundo? Para Phil Rajzman, bicampeão mundial de longboard, sim. Para o brasileiro, é questão de tempo para os pranchões invadirem uma Olimpíada e consolidarem, de vez, o ótimo momento vivido pelo esporte na atualidade.

“O primeiro evento, em Tóquio, a gente sabe que só vai ter a pranchinha, mas a campanha das Olimpíadas da Califórnia, o pin (broche) da campanha era um longboard, uma prancha de surfe. É uma questão de tempo, um vai puxando o outro”, disse em uma conversa com o Série ao Fundo.

Quando perguntado se poderia se aproveitar de alguma maneira desta situação, mesmo já com 35 anos de idade, Phil foi direto.

“Não dá para prever o futuro. Posso dizer que eu amo o que eu faço. Se eu não estiver como atleta, certamente estarei em alguma parte, como técnico, algo nesse sentido. E, na pior das hipóteses, caso eu não esteja envolvido, eu vou estar lá na torcida, vibrando e esperando a medalha de ouro do Brasil”, respondeu esbanjando bom humor.

Essas respostas fazem parte de um bate-papo muito prazeroso que o SAF teve com o bicampeão mundial de longboard. Além do sonho em ver sua modalidade virar olímpica, Phil também comentou sobre o momento do surfe no Brasil, a evolução do esporte, seus novos projetos, a vida em Los Angeles e até mesmo sobre sua paixão por ondas gigantes, o que pode, inclusive, render novos desafios num futuro não tão distante.

A entrevista completa vai ao ar na semana que vem! Não percam!

Yuri Soledade analisa evolução do big wave e projeta: "brasileiros vão dominar"

Gary Peterson / Facebook

Gary Peterson / Facebook

Por Guilherme Dorini

Vencedor do XXL em 2016 e um dos responsáveis por estender os limites da remada na famosa onda de Jaws: Yuri Soledade é, sem dúvida, um dos maiores nomes da história do surfe em ondas gigantes. Baiano radicado no Havaí, o surfista faz parte dos Mad Dogs, apelido que ganhou, ao lado de Danilo Couto e Márcio Freire, justamente pela forma como encarava as temidas ondas de Jaws, localizada na pequena ilha de Maui, casa do brasileiro desde 1994.

Em um bate-papo com o Série ao Fundo, Yuri analisou a evolução do surfe em ondas gigantes nos últimos 20 anos, desde os equipamentos utilizados até a maneira como os surfistas se comportam após o drop no paredão de água, e projetou: a nova geração brasileira vai dominar o esporte nos próximos anos.

“Acho que essa galera da nova geração é quem vai ter destaque no futuro. Acho que já está rolando uma troca de gerações, e vejo o Brasil se posicionando muito bem. No futuro, não será apenas no WCT (Circuito Mundial de Surfe), com a galera do Brazilian Storm, mas acho que também no Big Wave Tour (BWT). Fico até com pena dos gringos, porque vai ter um ou outro ali... Os brasileiros vão dominar”, cravou ao SAF.

Além do seu talento dentro do mar, Yuri também é um empresário de mãos cheias. O brasileiro é dono, ao lado de uma sócia, de cinco restaurantes em Maui – já planejando a abertura de um novo em Oahu, o primeiro na outra ilha. Ele ainda é casado com Maria, com quem tem três filhos: Kaipo, do primeiro casamento da esposa, mas que cresceu com Yuri desde os oito meses de vida e que faz sua segurança no mar, Kiara e Koa.

WSL

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Confira na íntegra o bate-papo com Yuri Soledade:

Série ao Fundo: Há dois anos, em uma conversa que tivemos, você apostava que o momento dos brasileiros em ondas gigantes chegaria. Hoje, podemos dizer que esse tão sonhado momento chegou?

Yuri Soledade: Eu acho que sim. Acho que finalmente o big wave está tendo seu espaço devido - não só na mídia especializada, mas também na mídia geral. O Chumbinho (Lucas Chianca) liderando essa galera, tem o (Pedro) Calado e vários outros que estão por vir, como o Kona, para mim tem um talento imenso, o Lapinho (Coutinho)...

SAF: E quais são as principais diferenças da sua geração para essa nova que está chegando?

YS: Na nossa época não existia um caminho traçado, né? Tivemos que lutar, desbravar, descobrir como funcionavam as coisas, principalmente o perigo de se machucar, de até morrer mesmo, que era muito maior. Não existia um caminho, um limite para o tamanho das ondas. Os equipamentos eram totalmente defasados... A galera vinha mesmo no intuito, na paixão, na vontade de botar para baixo, ser um Mad Dog: ir lá e tentar na cara e na coragem. Já essa nova geração, não. Eu senti no Chumbinho: chegou com muita sede, muita vontade e, graças ao (Carlos) Burle, conseguiu manter um foco. O esporte pode machucar muito e ele sofreu com isso neste ano. Se não tivesse machucado, poderia até ter sido campeão mundial já neste ano. A vontade de ir lá e botar para baixo, querer estar em todo swell, virar nas maiores ondas... É uma coisa do brasileiro: aquela raça, vontade de mostrar... Vem muito do coração. Desde criança você sabe quem vai ser um big rider ou não.

SAF: O cenário é mais favorável hoje em dia?

YS: Eu acho que, hoje em dia, os equipamentos, a mídia, tudo dá um apoio muito maior. É muito mais fácil o cara ter condições de viajar, estar em todo swell. Para nós, naquela época eu nem imaginava... Naquela época, ter um Jet ski, era como se o cara me falasse hoje que eu teria um jato particular. Era totalmente fora da nossa realidade. Hoje em dia você já vê os atletas, como o Chumbinho, viajando, passando temporada em Portugal, vindo para Mavericks (EUA), Maui (HAW)... Às vezes, em uma semana, o cara está em três lugares. Naquela época nós não tínhamos dinheiro nem para comer, quem dirá viajar. Isso está ajudando e diminuindo o tempo de evolução. Com 20 e poucos anos, já tem anos de experiência, surfando os maiores mares do planeta. Isso faz com que a evolução seja muito mais rápida e que ele possa se sentir confortável em qualquer condição de mar.

SAF: Aproveitar melhor as ondas, e não apenas sobreviver nelas, é o próximo passo da evolução do big wave?

YS: Acho que sim. O próximo passo das ondas gigantes era realmente poder surfar uma onda grande como se fosse uma pequena. E isso a gente vê na galera da nova geração. Acho que o Chumbinho, o próprio Kai Lenny, e vários outros, realmente assimilaram bem esse propósito e estão colocando em prática. Na nossa época, eu sempre usei isso como meu lema principal: usar a onda grande como se fosse uma onda pequena, mas a gente não tinha o total apoio, nem os equipamentos, nem as pranchas... Acho que esse é o futuro do big wave surfe.

SAF: Há dois anos, você ainda demonstrava um interesse muito grande em ser convidado para mais etapas do BWT. Como está isso?

YS: Eu sempre sonho em participar da etapa de Jaws. Por tudo que, não só eu, mas o Danilo (Couto) e o Márcio (Freire), fizemos aqui por esse esporte, acho que deveríamos ser chamados todos os anos. Mas entendo que, realmente, fica difícil. Fui convidado por dois anos seguidos, nos primeiros anos, esse último ano foi o Danilo chamado, e ainda espero ver o Márcio ali dentro do evento. Sempre sonhei em ser convidado para as outras etapas. Ano passado, pelo ranking do ano retrasado, acabei ficando como um dos primeiros alternates (substitutos). Acabou que era para eu ter ido para o México, e não rolou a vaga, era o segundo alternate de Jaws, um mexicano entrou, e eu não, e fui para Portugal. Lá, era o primeiro alternate, estava com a roupa de borracha, todo pronto, vendo se alguém faltava, mas não surgiu essa oportunidade. Faz parte, temos que entender que existe um número de vagas limitado, e que existem grandes atletas. Tive minha oportunidade. Se pintar, vou estar pronto, disposto, vou estar lá. Mas sei que existe essa nova geração, e também curto ficar do lado, ou trabalhando de técnico, como faço com o Kai Lenny, observando e vendo o que essa galera vai aprontar no futuro.

SAF: Seu filho (Kaipo) continua fazendo sua segurança na água?

YS: O Kaipo continua indo, mas nos últimos anos não tivemos grandes swells em Jaws. Tivemos aquele inverno do El Niño, de 2015 para 2016, e, desde aquela época, não tivemos grandes swells. Ele sempre me acompanha, e agora está montando touro, fazendo os dois esportes que ele mais curte: montar touro (e também é o segurança dos rodeios) e estar em Jaws salvando as pessoas com o jet ski. Ele achou as duas profissões dele, uma na terra e outra na água. Graças a Deus ele continua lá me ajudando e sempre lá para me salvar.

SAF: Imagino a situação da Maria, como mãe e esposa...

YS: Eu tenho a maior pena da minha esposa (risos). A Maria, coitada, não sei o que é pior: o marido que só anda se jogando nas ondas grandes, viajando, Portugal, Jaws... E o filho que agora piorou, agora é o ano inteiro, o marido era só durante o inverno. O filho, não, é quase toda semana - e volta todo quebrado: o touro pisa em cima, dá uma chifrada... Aí vai para Jaws, aquela adrenalina, não sabe se vai voltar... Realmente, eu dou o maior valor para minha esposa. Ela está de parabéns por segurar essa onda, não é uma onda que eu gostaria para ninguém.

SAF: Vocês está com 42 anos. Tem uma data, ou um limite, para encerrar a carreira profissional?

YS: Acho que o maior exemplo que eu tenho é o (Carlos) Burle. É um cara que saiu quando ele estava no topo, acho que tinha condições de disputar qualquer título em qualquer evento o mundo. Ele estava com 50 e saiu por cima. Então, não gosto de colocar datas e nem expectativas... Sempre falo para minha esposa e meus filhos: enquanto eu estiver lá, me divertindo e puxando os meus limites, eu quero estar lá. No dia que eu achar que não dá mais, sentir um medo que não dá para controlar, eu paro e vou entrar mais nos bastidores, tentar ajudar o esporte, que me deu tanto, a crescer mais.

SAF: Você ainda tem algum sonho para realizar?

YS: Acho que uma das minhas metas é poder pegar um swell épico em Nazaré. Fui lá algumas vezes, peguei umas ondas, mas ainda não foi a que eu gostaria. Acho que em Jaws já peguei a onda que sempre sonhei. Então, agora, minha meta é essa: passar um pouco mais de tempo em Portugal e, de repente, pegar uma bomba lá na remada ou mesmo em um dia gigante de tow-in, tentar fazer uma linha diferente. Vejo que a galera lá pega umas ondas grandes, mas ainda têm um pouquinho para evoluir nas linhas que você faz na onda. Não sei se vou conseguir, mas queria ir lá e fazer uma linha diferente - de tow-in ou uma bomba gigante na remada.

Soledade e Kai Lenny / Matt Brandt / Facebook

Soledade e Kai Lenny / Matt Brandt / Facebook

SAF: Deixando o surfe um pouco de lado, como estão os restaurantes e sua vida em Maui?

YS: Nesses últimos dois anos, por algum motivo, até por não ter dado essas ondas gigantes por aqui, eu acabei focando nos restaurantes. Sempre gosto de puxar os meus limites e, consequentemente, estou puxando nos negócios. Os restaurantes estão indo muito bem aqui. Estamos abrindo um novo em Waikiki, em Oahu. O mais novo que abrimos aqui virou marco em um ano e meio, está bombando. Graças a Deus as coisas vão bem. Ano passado recebemos o título de empresário do ano no estado do Havaí, eu com minha sócia. Começamos com um restaurante pequenininho, que tinha nove empregados. Agora estou com cinco, e quase 150 empregados. Nestes últimos dois anos houve uma evolução muito grande.

SAF: Ainda pensa em voltar para o Brasil?

YS: Bom, para morar, eu não sei. Meu sonho, desde que eu mudei para cá, com 18 anos, era sempre poder passar o inverno aqui e o inverno lá, sempre pegando as ondas grandes (risos). Então, se eu pudesse passar seis ou oito meses aqui e quatro lá, seria meu sonho de vida. Mas, com a família, os negócios evoluindo, vejo que esse sonho está cada vez mais difícil.

SAF: E você mantém ainda algum negócio no Brasil?

YS: Já tive bar, restaurantes, mas, ultimamente, resolvi focar só aqui. Estava um pouco focado, não só na minha carreira profissional do surfe, mas também nos restaurantes e acabei deixando um pouco de lado os negócios no Brasil. A única coisa que eu tenho lá, é o meu relacionamento com o meu patrocinador, a Mahalo, que é uma empresa que me apoia desde criança, desde os 12 anos de idade. Eles continuam crescendo bastante no Brasil, e eu gostaria muito de retribuir todo apoio que eles me deram todos esses anos. Se eu pudesse estar lá, junto com eles, dando uma força, seria algo que eu gostaria de fazer ainda na minha vida.

Campeão em Nazaré, Chumbo sonha com XXL e título mundial de ondas gigantes

WSL / ANTOINE JUSTES

WSL / ANTOINE JUSTES

Por Guilherme Dorini

“Expectativa baixa, objetivo alto e trabalho constante. Assim, a gente chega longe”. Esse é o ditado que guia a jovem, mas já muito bem sucedida, carreira de Lucas Chianca, o Chumbo, grande revelação brasileira no surfe de ondas gigantes. Treinado por Carlos Burle, o carioca de apenas 22 anos roubou a cena no começo deste ano ao faturar o Nazaré Challenge, última etapa do Mundial de Ondas Gigantes (BWT), e terminar a temporada na quinta posição geral.

Chumbo conversou com o Série ao Fundo para contar todos os detalhes de sua promissora carreira: desde os tempos em que trabalhava no Havaí para pagar suas viagens para Jaws, até o momento que se conectou com Burle e decidiu apostar todas as suas fichas no surfe de ondas gigantes – onde sonha se tornar campeão mundial.

“Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré. Foi aí que nos  conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour (BWT), esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos pela Performance of the Year”, contou ao SAF.

Além do BWT, Lucas revelou que disputará algumas etapas da divisão de acesso do surfe mundial de pranchinha (WQS) e que está ansioso para a premiação do Big Wave Awards, que acontece neste mês. O brasileiro concorre com quatro ondas na categoria "Maior Onda na Remada" e uma na "Melhor Performance Masculina".

Confira o bate-papo na íntegra com Lucas “Chumbo” Chianca:

Série ao Fundo: Como foi seu começo no surfe?

Lucas Chianca: Eu comecei a surfar em Saquarema (RJ), com meu pai, quando eu tinha três anos de idade. Eu era bem molequinho, só por esporte mesmo. Foi uma coisa que foi crescendo, competindo no amador, até os 17 anos, quando virei profissional. Sempre fui pelo caminho do surfe de ondas pequenas, mas me destacava mais nos mares de ondas grandes. Quando eu fiz 18 anos, e tive aquela pequena independência dos pais, fui para Jaws (HAV) pela primeira vez... Foi aí que foi embalando. Depois dessa viagem eu comecei a gostar mais [de ondas gigantes].

SAF: A ideia inicial era de virar profissional na pranchinha, né? Como era isso na sua cabeça?

LC: A ideia inicial antes era disputar WQS, entrar para o WCT e ser campeão mundial. Só que eu sempre gostei mais de onda grande, tinha um apego maior quando o mar subia... Eu ficava mais confortável, mais atirado... E deu certo! Acho que agora mudei para o esporte certo. Nas ondas pequenas, quando o WQS estava com onda muito pequena, acabava me atrapalhado um pouquinho, não era meu forte... Tem aqueles "maroleiros ratos" sempre (risos).

SAF: O desgaste que é disputar o WQS, além da parte financeira, também pesou na sua decisão?

LC: Com certeza. Desde quando comecei o WQS, eu já não tinha patrocínio. Então, era sempre do meu bolso, meu pai me ajudando... Era muito difícil manter isso e dar uns tiros para Big Wave... Todo dinheiro que eu fazia no WQS, eu guardava e investia em uma trip de onda grande, que era o que eu gostava. Comecei a fazer vários WQS, fui melhorando, fiz um ano bom, lucrei um dinheirinho e fui para Mavericks (EUA). Lá eu me apaixonei de uma forma... Soube que queria aquilo para mim, mas não sabia qual era o caminho para entrar no Big Wave Tour, como fazer... Foi aí que meu tio, Marcos Monteiro, que me levou em Mavericks pela primeira vez, me conectou com o Carlos Burle, que é meu treinador agora. Trilhamos um caminho e deu um pouco certo.

SAF: E que ano foi essa "virada de chave"?

LC: Foi em outubro de 2016. Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré (Portugual). Meu tio não conseguiu ir junto dessa vez, mas eu fui com o Burle. Foi aí que conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour [de big wave], esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos entrar no Big Wave World Tour pela Performance of the Year.

SAF: E você lembra como foram as primeiras experiências em ondas grandes?

LC: Na verdade, eu sempre gostei muito. Desde moleque eu ia para o Havaí, com 14 anos, já surfava Waimea grande, 18 pés, 20 pés... Sempre quis ir para Jaws. No primeiro ano, meu pai não tinha deixado, no segundo não deixou de novo... Aí no terceiro ano, eu já tinha 18 anos, trabalhei no Havaí, comprei minha primeira passagem para Jaws e fui ver a realidade, né? Waimea é uma onda bizarra, mas não é igual Jaws, Mavericks, Nazaré, Puerto Escondido... Essas ondas que são power. Waimea é mais soft assim, abraça a gente, é mais fácil. Na minha primeira vez em Jaws, já peguei um swell gigante, já consegui pegar algumas ondas e me dar bem no pico. Fiquei muito feliz, já me apaixonei pela parada. Dropar uma onda gigante foi a coisa mais feliz da minha vida. E queria repetir isso. Continuei trabalhando no Havaí, indo para Jaws em todo swell, com uma prancha só, e deu certo. Fiz a temporada, três Jaws... Levei até meu irmão nessa temporada, ele tinha 14 anos, pegou uma bomba também...

SAF: Você trabalhava com o que no Havaí para conseguir esse dinheiro?

LC: No Havaí, eu trabalhava de pedreiro, jardineiro e fazendo comida em um food truck. E aí, eu fiz uma grana, consegui juntar um dinheiro forte para viajar três vezes para Jaws, comprar duas pranchas...

SAF: E você ficou nessa por quanto tempo?

LC: Fiz quatro meses de trabalho.

SAF: Mas valeu a pena, né?

LC: Valeu, valeu muito a pena. Foi o pontapé.

SAF: E como é a vida de um big rider? Viver em torno de um swell...

LC: A vida de big rider não é fácil, né. É mais ou menos isso aí mesmo. A gente tem que estar 365 dias do ano pronto para, quando acontecer [um swell], estar 100% pronto para o que vier. Só sabemos dos swells uns cinco dias antes. Então, temos que ter a vida livre. Não posso marcar um eveto para daqui um mês, nunca sei se vou estar daqui um mês no Brasil, ou na Austrália... Nossa vida não é tão um mar de rosas que tudo mundo pensa. A gente viaja, vai para uns lugares irados, pega várias ondas, mas temos que estar prontos para viajar em qualquer momento e circunstância - dormindo em aeroporto, fazendo escalas gigantes... Temos que chegar naquela hora, naquele momento e pegar a hora boa do mar.

SAF: Já deve ter rolado várias frustrações também...

LC: Isso é uma coisa que temos que estar dispostos, pode acontecer. Sempre muda um pouquinho, o vento sempre muda, o swell muda, aumenta, diminui... É a mãe natureza, ela que manda, temos que estar sempre abertos para o que ela vai entregar para a gente.

SAF: Vamos falar da parte financeira. A conta está fechando?

LC: A conta ainda não fecha, a gente investe mais do que ganha, mas é meu sonho, o esporte que amo, meu trabalho. Vou continuar investindo, tenho recebido uns bons frutos... Deu para dar uma respirada depois que ganhei o Nazaré Challenge, para começar esse ano... Se não fosse isso, a gente ia fechar a conta no negativo total esse último ano.

SAF: O apoio é diferente para quem está no big wave ou na pranchinha?

LC: Na verdade, é o mesmo apoio, estou aberto aos patrocínios, tenho dois que me ajudam muito, que é a Blu-X e o Spoleto, que são os que me ajudam financeiramente. Também tenho outros co-patrocínios. Spoleto bancou meu tour esse último ano, a Blu-X estamos em uma campanha com eles, temos trabalho legal juntos... Mas as marcas em si não estão muito felizes com a economia e não sei por que não estão patrocinando a gente, mas vamos esperar, vai que uma hora da certo.

SAF: E vencer a etapa em Nazaré foi o auge...

LC: Pô, Nazaré foi incrível, parece que nem aconteceu. Foi um sonho realizado. Foi muito trabalho. Eu e o Burle trabalhamos muito para isso, investimos pesado, queríamos muito que isso acontecesse. No ano passado, tive minha lesão no início, que foi uma coisa que me bloqueou bastante. Quebrei o perônio e rompi dois ligamentos do tornozelo... Fiquei quatro meses em reabilitação, mas depois de dois meses já estava de pé, surfando de novo... Meu objetivo já era ser campeão mundial, bater de frente no tour, conseguir um espaço lá dentro... Mas Deus sabe o que faz, ele que escolhe. Foi bom para mim [a lesão], um aprendizado e amadurecimento gigante para mim. Passei por cima com tudo. Perdi a etapa de Puerto Escondido, que era a etapa que eu sonhava em competir, e talvez esse ano nem role, mas fui com tudo para as outras etapas. A primeira etapa foi em Jaws, tive um desempenho muito bom, mas calhei de cair em uma superheat, a segunda semifinal, só com notas altas, fiquei em quinto e terminei em 9º no geral. Estava treinando muito, queria minha reclassificação para o BWT, precisava de uma final e deu certo. Fui para Nazaré com sangue no olhos, já tinha gastado quatro vezes em Nazaré, estava pronto, sabia tudo que ia acontecer naquele evento. Cheguei muito bem, com o Burle, foi um sucesso, estava confortável e seguro para tudo que viesse. Acho que ganhei por isso. Tive muita ajuda de todo mundo para realizar meu sonho e consegui colocar o Brasil de novo no lugar mais alto do pódio.

SAF: E depois ainda teve o Capítulo Perfeito...

LC: No Capítulo Perfeito, mais uma vez a minha experiência ali em Nazaré me deixou muito a vontade. Muito tempo que eu não encostava na prancha pequena, só surfando de gunzeira, de prancha de town in... Quando encostei, foi dois dias antes do evento para treinar. Consegui colocar a prancha no pé, me entender... Nazaré conheço bastante aquela onda, consegui me posicionar no campeonato inteiro... Que pena que não ganhei, estava com tudo para ganhar, só não consegui achar as ondas ali no final, mar já estava bem ruim. Tudo que eu colhi esse ano foi muito bom, estou muito grato. Espero que logo mais apareça alguma marca para me patrocinar.

SAF: Nós vimos você atacando as ondas em Nazaré. Já é uma evolução no Big Wave?

LC: Acho que a nova geração tem vindo com uma cabeça um pouco diferente. Como batemos muito de frente no WQS, competição, a molecada treinando muito para ser WCT... Quando descobre a paixão pelas ondas gigantes, acabamos atuando diferente. Acho que a "velha geração" - eles são novos ainda e botam para fuder com a gente ainda -, abriram as portas, mas hoje estamos chegando com outra pegada, outra performance, outra visão da onda. Não queremos só sobreviver na onda, queremos performar e conseguir fazer o nosso melhor na onda, né?

SAF: E como é o relacionamento com o Burle?

LC: Eu dou graças a Deus por ter o Burle do meu lado. Acho que foi essencial, um ponto alto na minha carreira. Com ele, trabalhamos minha cabeça melhor para competir nas ondas gigantes, me adaptar ao novo mundo das ondas gigantes. Eu falo que ele é a experiência e eu sou o talento e o cavalo. Ele coloca a rédea e o cavalo está dando certo, é um cavalo de raça, que é só adestrar e colocar certinho. Ele é como se fosse uma família para mim. Agradeço ao meu tio Marquinhos, que foi quem nos conectou. O Burle mudou minha cabeça, minha vida. Não só a minha, mas da minha família. Pensamos diferente. Foi muito importante na minha vida. Não só conhecer ele, mas trabalhar com ele. É incrível. É uma gratidão eterna.

SAF: E quais são os planos e objetivos para o futuro?

LC: Se a gente for falar de futuro próximo, estou indo para o XXL em abril, dia 24 é a festa, tenho muitas ondas concorrendo, conto com a torcida de todo mundo. É difícil ganhar, mas estamos bem, concorrendo com ondas muito boas. Futuramente, é continuar trabalhando, produzindo conteúdo, esperando os eventos de onda grandes, esperando as ondulações chegarem a algum lugar do mundo para ir atrás delas. Esse ano vou correr alguns WQSs também, vou tentar investir para não ficar muito parado, manter um ritmo de competição. Essas são minhas metas. Quero muito levar o Brasil para o pódio, ser campeão mundial e espero que isso seja breve.

SAF: E disputar o WQS é só para manter o ritmo mesmo?

LC: Acho que é só para manter um ritmo de competição, uma estratégia minha, não conta para ninguém (risos). [É bom para] manter aquele ritmo, aquele surfe afiado e aquela adrenalina da competição sempre em dia, sabe? Aquele milésimo de segundo que você pensa rápido na competição muda tudo.

SAF: Mas ainda existe a chance de mudar sua cabeça e tentar entrar para o WCT?

LC: Isso é uma ideia longe, nem passa pela minha cabeça agora. Vou competir WQS, se eu passar baterias, vou fazer pontos, se ganhar muitos pontos, vou classificar para os Primes... Quero escolher bastante as etapas que quero competir, para ir em ondas boas, que consiga surfar melhor. Então, não vai ser um investimento total, full time, no WQS, mas vou dar os tiros certos nas etapas boas para tentar resultados bons. E, talvez, algum dia, se eu entrar no Prime, acho que podemos pensar mais no WCT. Mas seu sonho sempre foi ser campeão mundial e é cada vez maior na disputa de ondas grandes, é o que mais amo na vida nesse momento, eu acho.