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Na Califa, Phil Rajzman se diz realizado e mostra interesse em BWT: "quem sabe"

Por Guilherme Dorini

Felicidade é uma marca registrada de Phil Rajzman. Na última semana, o surfista conversou com o Série ao Fundo por cerca de uma hora, e mostrou por que é considerado um cara alto astral por todos que o conhecem. Dono de dois títulos mundiais de longboard, Phil se sente realizado após uma longa carreira no surfe – principalmente quando olha para trás e vê por tudo que passou.

“É uma realização, um sentimento de plenitude. Passei por momentos de dificuldade, perdi patrocínio, dei a volta por cima, administrei tudo... É igual o mar, as ondas, acho que nossa vida é feita de altos e baixos. O mais importante foi acreditar nos meus sonhos. Que isso sirva de exemplo para todo mundo. Trabalho fácil não existe. Passei muito perrengue, tive que correr muito atrás... Mas prefiro que tenha sido dessa forma a ter trabalhado e ter ganhado muito dinheiro com uma coisa que eu não curtia fazer ou fazia por amor. A busca pelo que você realmente acredita, os ideias, é fundamental para você ser feliz. Eu me considero uma pessoa muito feliz”, disse Phil ao SAF.

Um dos grandes fatores para toda essa felicidade está na Califórnia, onde Phil mora atualmente (outro sonho realizado) e aproveita melhor seu tempo para evoluir no surfe clássico e trabalhar no desenvolvimento de equipamentos – outra paixão em sua vida.

Com sangue esportivo correndo nas veias – é filho de Bernard Rajzman e Michelle Wollens –, Phil recordou os primeiros passos da carreira, sua curta (e pressionada) experiência no vôlei e o desejo de, cada vez mais, se aventurar em ondas gigantes, demonstrando um interesse em, quem sabe um dia, participar do Big Wave Tour (Mundial de Ondas Gigantes).

Confira o bate-papo completo com Phil Razjman:

Série ao Fundo: Você veio de uma família de atletas, né? Como foi seu começou no esporte?

Phil Rajzman: Por ter nascido em família de atleta, sempre fui incentivado a praticar muitos esportes. Desde a escola, saía da aula e tinha uma atividade física. Meus pais deixavam eu escolher o que queria fazer, mas tinha que ficar pelo menos seis meses naquilo (risos). 'Até os 13, 14 anos, você pode fazer o que quiser. Mas, se quiser ser atleta, vai ter que começar escolher e focar', ouvia isso desde criança.

SAF: E a história no surfe?

PR: O surfe começou bem novo, como meu pai era do Rio de Janeiro também, tinha aquela cultura de praia, ele sempre teve muita intimidade com a praia, o mar... Começou a me levar novinho para dar os primeiros mergulhos, dali surgiu minha relação com o mar.

SAF: Rolou algum tipo de "pressão" para você seguir uma carreira no vôlei?

PR: Eu cheguei a jogar vôlei, lógico. Eu jogava na praia, para me divertir. Aí resolvi tentar ir jogar em algum clube. Comecei a ver que começava a juntar torcida atrás: 'jornada, jornada!'. (risos). Pensava: 'calma, deixa eu aprender dar manchete, toque para depois ir para o jornada' (risos). Existia uma pressão externa muito grande, era o oposto do que eu sentia quando estava dentro da água surfando: era uma paz, uma forma de meditar. Dentro da água era quando meus problemas se organizavam e meio que se resolviam. Me sentia em harmonia.

SAF: E quando você falou para seus pais que seguiria carreira no surfe? Como eles receberam isso?

Bernard e Phil Rajzman / Arquivo pessoal

Bernard e Phil Rajzman / Arquivo pessoal

PR: Fui acontecendo naturalmente. Meu primeiro patrocinador foi o Pepê, que meu pai frequentava sempre ali. Tinha seis anos, saía da água e podia comer um lanchão. Isso que me incentivava. Minha mãe ia de manhã, e meu pai a tarde. Então eu passava os dois períodos no mar. A partir daí, com sete anos, comecei na escolhinha do Rico, quando comecei a competir e ter experiência em campeonatos. Com 13 anos recebia a primeira proposta, de fato, de patrocínio. Então, a coisa meio que ficou mais séria. Meu pai falou: 'perdi meu pai nessa idade, precisa aprender a ser responsável. A partir de agora vai ter a oportunidade de receber um salário...' Era pouco, mas o suficiente para pagar as passagens de ônibus para a escola, as merendas... Foi bom, me ajudou a ter mais responsabilidade quando novo, me ensinou a juntar meu dinheiro - tanto para competir quanto para viajar.

SAF: Quando você viu que o caminho era seguir pelo longboard?

PR: Com 14 anos, mais ou menos, eu comecei a me divertir na competição mais pelo lado do longboard. Sempre curti surfar de longboard quando o mar estava pequeno. Teve uma competição de escolhinhas de surfe em Saquarema (RJ), o Rico ia ser um dos representantes e me convidou para ser o segundo da escola dele. Fiz final com ele, com outras lendas da época e isso me deu muito incentivo. A partir daí, o Rico me deu um longboard usado de presente e novas situações e desafios foram surgindo.

SAF: O longboard ainda precisa quebrar alguma barreira no cenário nacional?

PR: Acho que o surfe de pranchinha chegou no Brasil já como sendo o futuro do esporte. Mas quando você vai para o Havaí, Austrália, Califórnia, você vê que existe uma galera surfando de tudo quanto é jeito: bodyboard, de peito, longboard, pranchinha. Surfe é surfe. Não existe muito essa distinção, todo mundo se diverte. Na minha época, eu cheguei até a sofrer um pouco de preconceito, existia isso de 'longboard é coisa de velho, do passado, de quem está velho e cansado, quer chegar mais rápido na onda' (risos). E acho que era isso que me atraía mais para o longboard. Eu tinha esse desafio de mostrar para os meus amigos que longboard dava para ser radical, que foi quando fui campeão mundial (2007), era um surfe progressivo, eu puxava aéreos, manobras da pranchinha... Aí a situação inverteu, meus amigos que me zuavam começaram a me procurar para pedir pranchar usadas (risos).

SAF: Você foi campeão mundial há 11 anos. Te incomoda de alguma maneira ver o surfe explodindo no Brasil apenas após as conquistas na pranchinha?

PR: De jeito nenhum. Não me incomoda de forma alguma, muito pelo contrário. Acho muito positivo, torço muito para todos os brasileiros. O que eu mais quero é ver o surfe lá em cima. Acho que um sempre ajuda o outro. Meu segundo título mundial, em 2016, talvez não tivesse tido tanta repercussão se não tivesse tido os títulos do (Gabriel) Medina, do (Adriado de Souza) Mineirinho... Só fortalece o esporte.

SAF: Você foi campeão mundial em dois momentos totalmente diferentes se tratando de surfe no Brasil, principalmente sobre divulgação, espaço na mídia... Quais foram as principais diferenças?

PR: Hoje em dia tem a internet que facilita muito, redes sociais, informações chegam bem mais rápido. Mas, na época, a gente teve uma cobertura muito boa também. A grande diferença entre os dois títulos, foi o critério de julgamento utilizado pela WSL. Em 2007, ainda era ASP, tomando um rumo mais progressivo. E, quando a WSL entrou, eles colocaram novos critérios de julgamento, colocando o longboard mais no lado clássico, justamente para diferenciar a modalidade da pranchinha. Evitar um conflito de patrocinadores ou qualquer tipo de situação.

SAF: E como foi essa adaptação?

PR: Eu, como atleta, imediatamente entendi aquilo ali. Muitos atletas bateram de frente, reclamaram... Clássico e progressivo é a evolução natural do esporte, você tem equipamentos cada vez mais leves... Mas eu entendi o lado da WSL. Essas eram as regras da empresa, se você não quiser cumprir, vão te botar para fora. Apesar de não ser favorável para mim, procurei evoluir e modificar. Fui uma oportunidade para vir para a Califórnia e treinar isso. Foi uma motivação que faltava. Em 2014 já foi vice-campeão mundial já com esses novos critérios. Isso me deu ainda mais motivação. E foi quando sofri outro "preconceito" em 2016 (ano do título mundial), eles falavam: 'agora já era para o Phil, agora ele não tem mais chance, no surfe clássico ainda...'. E meu pai sempre falava que gostava da torcida contra, dava mais incentivo. Isso, no fundo, quem pensou dessa forma, mesmo inconsciente, me deu essa força. É um sentimento de plenitude.

SAF: E você ainda tem uma queda pelas ondas gigantes, né? Passa pela sua cabeça tentar aparecer em algum evento do Big Wave tour?

PR: O surfe de ondas grandes sempre foi uma coisa que eu gostei muito. Minhas primeiras experiências no Havaí foram quando eu vi onda grande de verdade na minha frente (risos). Sempre tive uma atração pelas ondas grandes. A adrenalina, velocidade, fator risco... Dentro do mar, você percebe que começa a se tornar um pouco menos agressivo o crowd, e sim amoroso. Todo mundo sorrindo... No fundo, todo mundo sabe de que depende de todo mundo ali. Acho isso muito interessante. O mar está gigante e tem alguém ali do lado para compartilhar, eu sei que eu posso contar com ele e ele sabe que pode contar comigo se alguma coisa acontecer. O que sempre coloquei em prioridade é questão da segurança. Sempre gostei de desafios, mas sempre pensei nas consequências. Atualmente, tenho cada vez mais buscado isso. Principalmente porque está dando visibilidade, está crescendo, que faço por amor. Tenho desenvolvido longboards para surfar essas ondas. Tem sido um desafio divertido. Ainda não sei quando vou conseguir fazer um surfe clássico em ondas gigantes, mas só de você estar sentado no canal, vendo aquelas montanhas... Me sinto atraído por isso. Quem sabe não pinta uma oportunidade de entrar no BWT também.

Phil Rajzman em Jaws / Crédito: Sigal Petersen

Phil Rajzman em Jaws / Crédito: Sigal Petersen

SAF: Você ressaltou sobre segurança. Onda gigante não é para qualquer um, né?

PR: Ali não tem marinheiro de primeira viagem, não tem ninguém se aventurando pela primeira vez para surfar. É muita experiência dentro da água. Só de estar presente você já aprende muito. Só por ver as atitudes das pessoas. E percebe também como até experientes tomam atitudes erradas, isso legal porque faz você colocar os pés no chão, para não deixar subir muito na cabeça e dropar qualquer onda. É realmente muito perigoso.

SAF: E sua mudança para a Califórnia foi por conta da proximidade de picos de ondas gigantes também?

PR: Em 2006, comecei a ser apoiado pela Hobie (Surfboards), é a primeira marca de surfe do mundo. Era um sonho ter o patrocínio e surfar com uma prancha da Hobie. Em 2006, eu tive essa oportunidade e eles começaram a me apoiar. Em 2007, fui campeão mundial com equipamentos deles e comecei a ter um apoio maior, como viagens para a Califórnia. Gosto muito de desenvolver equipamentos, entender como cada prancha funciona, como faço para mesclar pranchas... Isso foi me aproximando daqui. Meu objetivo de estar aqui agora é o desenvolvimento do surfe clássico e de equipamentos - além de estar perto do Havaí e Mavericks. E também teremos duas etapas de uma nova liga, que chama Surf Relik, em Malibu e Trestles. Então o fato de estar aqui facilita bastante, não temos um custo de viagens do Brasil para cá. Além das etapas da WSL, em Papua Nova Guiné e Taiwan. Aqui, é muito mais fácil de chegar nestes pontos, além dos custos serem muito mais baratos. Se você colocar no papel, vale muito mais a pena manter aqui. Oportunidade surgiu e está totalmente ligado com realizações dos meus sonhos.

Phil Rajzman sonha com longboard na Olimpíada: "questão de tempo"

Por Guilherme Dorini

WSL/Tim Hain

WSL/Tim Hain

O mais difícil já aconteceu: o surfe virou, de fato, um esporte olímpico. Mas existe alguma possibilidade da modalidade ir além na competição esportiva mais importante do mundo? Para Phil Rajzman, bicampeão mundial de longboard, sim. Para o brasileiro, é questão de tempo para os pranchões invadirem uma Olimpíada e consolidarem, de vez, o ótimo momento vivido pelo esporte na atualidade.

“O primeiro evento, em Tóquio, a gente sabe que só vai ter a pranchinha, mas a campanha das Olimpíadas da Califórnia, o pin (broche) da campanha era um longboard, uma prancha de surfe. É uma questão de tempo, um vai puxando o outro”, disse em uma conversa com o Série ao Fundo.

Quando perguntado se poderia se aproveitar de alguma maneira desta situação, mesmo já com 35 anos de idade, Phil foi direto.

“Não dá para prever o futuro. Posso dizer que eu amo o que eu faço. Se eu não estiver como atleta, certamente estarei em alguma parte, como técnico, algo nesse sentido. E, na pior das hipóteses, caso eu não esteja envolvido, eu vou estar lá na torcida, vibrando e esperando a medalha de ouro do Brasil”, respondeu esbanjando bom humor.

Essas respostas fazem parte de um bate-papo muito prazeroso que o SAF teve com o bicampeão mundial de longboard. Além do sonho em ver sua modalidade virar olímpica, Phil também comentou sobre o momento do surfe no Brasil, a evolução do esporte, seus novos projetos, a vida em Los Angeles e até mesmo sobre sua paixão por ondas gigantes, o que pode, inclusive, render novos desafios num futuro não tão distante.

A entrevista completa vai ao ar na semana que vem! Não percam!

Longboard, evolução e surfe feminino: um papo com Chloé Calmon

Por Guilherme Dorini

Você acha mais fácil surfar de longboard do que de pranchinha? Pergunte isso para uma menina de 12 anos tentando carregar um pranchão de três metros até dentro do mar. No entanto, por incrível que pareça, foi assim que começou uma longa paixão entre Chloé Calmon e a modalidade que pratica até hoje. A brasileira, que já foi duas vezes vice-campeã mundial na competição chancelada pela World Surf League (WSL), conversou com o Série ao Fundo sobre o início da carreira, surfe feminino, sua evolução e o tão sonhado título.

“Meu objetivo principal é ser campeã mundial. É onde eu coloco toda minha energia treinando e visualizando minha vitória. Sei que é uma coisa que vai vir no tempo certo. Já coloquei muita expectativa em cima disso e me frustrei bastante, embora fossem bons resultados. Já aprendi muita coisa, mas ainda tenho muito para melhorar. Vai ser uma coisa muito natural [ser campeã]. Já visualizei e imaginei várias vezes isso acontecendo”, disse ao SAF.

Reprodução / Instagram

Reprodução / Instagram

Aos 23 anos, Chloé é uma das caras do surfe feminino no Brasil. Além de ter uma evolução incrível na parte profissional ao longo dos últimos anos, ela ainda se destaca na televisão com programas sobre o esporte e é vista com ótimos olhos pelas (várias) marcas que a patrocinam. Quando perguntada sobre a situação atual do surfe feminino no país, ela rechaça qualquer tipo de estigma.

“Hoje em dia, as mulheres pararam de ficar batendo nessa mesma tecla de que 'o surfe feminino não tem apoio'. Isso é mentira. Você vê várias empresas grandes patrocinando atletas, o Circuito Brasileiro feminino com mais etapas do que o masculino, o que nunca aconteceu... Acho que as atletas já saíram desse momento de ficar reclamando e já estão vivendo uma fase muito melhor”, opinou.

Confira o bate-papo completo com Chloé Calmon:

Série ao Fundo: Como você começou no surfe?

Reprodução / Instagram

Reprodução / Instagram

Chloé Calmon: Ganhei minha primeira prancha com 10 anos, mas tenho foto de fralda em cima de um longboard do meu pai. Ele sempre me levava na praia, me colocava em cima da prancha, nas ondas... Não sei ao certo com quantos anos eu comecei, mas o marco foi quando ganhei minha primeira prancha e comecei a ir todo final de semana. Foi aí que, realmente, começou o meu contato com surfe direto. Fiz natação desde os dois anos de idade, então, sempre me senti muito a vontade na água. Me ajudou muito a entrar no surfe tão cedo.

SAF: E como parou no longboard?

CC: Comecei com um fun board, 6'0, que, para mim, na época, já era maior que eu. Dois anos depois, com 12 anos, eu peguei o longboard do meu pai emprestado em um dia que estava pequeno. E digo que foi amor à primeira onda. Nunca mais devolvi a prancha para ele. Realmente me apaixonei. Todos os meus amigos surfavam de pranchinha e falavam: 'longboard é coisa de velho, de pai'. Mas o que eu achava mais diferente era: como que eu, com 12 anos, conseguia controlar uma prancha de três metros? E como eu conseguia usar cada centímetro daquela prancha tão grande na onda. Para mim era o ballet do surfe, a coisa mais bonita e feminina que tinha de esporte. Mesmo com todas as dificuldades - a prancha não caber no meu braço, ser pesada... Meu pai levava até o pé da água, eu chamava ele para me ajudar quando ia sair... Esse desafio foi o que me manteve no longboard, era por ser mais difícil.

SAF: E ser profissional de pranchinha nunca passou pela sua cabeça?

CC: Eu nunca tive muito gosto pela pranchinha. Me apaixonei pelo longboard desde cedo e nunca tive vontade de seguir um outro lado. Até surfei de pranchinha quando era mais nova, mas o longboard para mim é o mais imprevisível, você nunca enjoa, cada dia pode surfar de um jeito diferente. Um dia você pode ser mais radical, no outro totalmente clássico... Você aproveita ondas de um palmo ou três metros. Algo que me adaptei muito rápido.

SAF: E quando começou de fato a competir?

CC: Comecei a competir com 12 anos mesmo. Meu pai me levava muito na Praia da Macumba, reduto de longboarders do Rio de Janeiro. Em uma dessas vezes, estava tendo uma etapa de um campeonato estadual de longboard. Entrei nessa primeira competição, não tinha mais vaga na feminina, entrei na iniciante masculina, passei duas baterias... Foi quando o bichinho mordeu e eu não queria mais fazer outra coisa. Me profissionalizei dois anos depois, quando eu ganhei o Circuito Petrobras, que era válido como o Brasileiro daquela época - tinha 14 anos. No ano seguinte, ganhei a vaga para competir no Mundial de Longboard, que, na época, era na França. Foi outro marco muito importante. Quando cheguei lá, eu vi que era onde eu queria estar, entre as melhores do mundo, ser uma delas. Sabia que teria que abrir mão de muita coisa, me dedicar, mas sabia também que estava sendo muito sortuda. Então, com 15 anos, foi um marco mesmo.

SAF: E de lá para cá sua história tem evoluído muito. Você foi duas vezes terceiro lugar no Mundial, duas vezes vice-campeã. Esse ano o título vem?

CC: Estou há nove anos no Circuito Mundial, a minha caminhada tem sido muito boa. Tenho aprendido muito a cada ano que passa. É uma caminhada longa. Antes de ser terceira colocada por dois anos, eu fui dois anos como nono lugar, um ano como quinto, dois como terceiro, dois como segundo e, claro, meu objetivo principal é ser campeã mundial. É onde eu coloco toda minha energia treinando e visualizando minha vitória. Sei que é uma coisa que vai vir no tempo certo. Já coloquei muita expectativa em cima disso e me frustrei bastante, embora fossem bons resultados. Já aprendi muita coisa, mas ainda tenho muito para melhorar. Vai ser uma coisa muito natural [ser campeã]. Já visualizei e imaginei várias vezes isso acontecendo.

Reprodução / Instagram

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SAF: De certa forma, acredita que essas frustrações foram boas para você?

CC: A cada ano eu me fortaleço ainda mais. Estou mais confiante. É longa [caminhada], mas crescente. Vejo algumas meninas que entram no circuito, em dois, três anos, ganham o título, se tornam estrelas da noite para o dia, mas, depois, não têm nenhum resultado forte, não tem consistência - se apaga de novo e não tem um bom resultado. Apesar de não conquistar o título ainda, tenho mantido uma sequência de resultados boa, fazendo pódio em todos os eventos... Isso me deixa cada vez mais perto do meu objetivo.

SAF: O Mundial é um tiro curto*, né? Disputar também a divisão de acesso te ajuda a manter um ritmo de competição?

CC: Fica difícil você treinar 12 meses e competir por cinco dias, uma semana. Tem muita pressão, expectativa... Se você comete algum erro, precisa esperar um ano de novo para colocar em prática o que aprendeu. Então, a forma que encontrei para me manter ativa, competindo, e encontrando o ponto de melhoria, é participando do qualificatório, o LQS (divisão de acesso do longboard mundial), que tem várias etapas ao longo do ano. Continuo em contato com as atletas, surfo ondas diferentes e mantenho um ritmo bom para chegar no Mundial.

*no último ano, a competição foi realizada em duas etapas. Nesta temporada, apenas uma etapa está confirmada até o momento.

Reprodução / Instagram

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SAF: E essa conta fecha? Consegue dinheiro suficiente para viajar para todas essas etapas?

CC: Sim. Hoje em dia, com todos os meus patrocínios, eu consigo viajar, participar dos eventos, fazer viagens de freesurf... Além disso, apresento alguns programas no Canal OFF. Isso tudo me dá uma base para eu viver uma vida de sonho, sempre atrás de novas ondas.

SAF: É notável a transformação que o surfe sofreu no Brasil após os títulos do Gabriel e do Adriano. Você também sentiu isso no surfe feminino?

CC: Acho que foi um divisor de águas muito grande no surfe brasileiro (os primeiros títulos mundiais - do Medina e do Mineiro). Hoje em dia, o surfe é muito popular e tomou um ar muito mais profissional. Antigamente, o surfista tinha a imagem de que não era atleta, era vagabundo, ficava na praia... Hoje em dia é visto como um atleta tão profissional quanto um jogador de futebol, de vôlei... Acho que nessa evolução também anda o surfe feminino. Nos últimos anos, tivemos a volta do cenário de competições no Brasil, você vê o nível aumentando, mulheres surfando tão bem ou até melhor que alguns homens. É uma caminhada lenta, mas crescente. Temos várias empresas apostando no surfe feminino, como a Neutrox, por exemplo, que patrocina a Silvana Lima, a Nicole Pacelli e eu, Eclowater, Roxy... Enfim, várias empresas grandes apostando no surfe feminino, apoiando atletas, revivendo o cenário de competição...

Reprodução / Instagram

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SAF: Incomoda o fato de o surfe feminino ainda ser relacionado diretamente com a aparência das surfistas?

CC: Minha maior preocupação é ser uma atleta de ponta completa, mas, hoje em dia, não adianta você só ter performance e bom resultado. O trabalho fora da água também é muito importante: o retorno que você dá para seus patrocinadores, o relacionamento com mídia, televisão, falar com jornalistas, mídias sociais... Uma surfista completa é aquela que consegue entregar o pacote completo: tanto dentro como fora da água. A marca te que patrocina quer vender, então ela precisa também da imagem, da propaganda... Às vezes isso vale até mais que o resultado... Meu foco sempre foi fazer os dois lados muito bem, mas sempre tendo em vista que quero ser notada por ser uma ótima surfista, não por ser uma modelo. Tenho os patrocínios que tenho hoje por participar do Circuito Mundial há nove anos, sou profissional há 13... É uma longa caminhada. Tem muita gente que diz: 'é porque apresenta programa no OFF, porque é bonitinha' [que tem patrocínios]. Mas é um trabalho que vem de vários anos.

SAF: Ainda rola muito preconceito? É difícil ser mulher surfista no Brasil?

CC: Acho que se falou sobre isso por muito tempo, mas sempre a [batendo na] mesma tecla, até ficou chato. Se você coloca na cabeça que é difícil ser mulher surfista no Brasil, vai ser assim para o resto da sua vida. Você precisa parar de se olhar como vítima, correr atrás de um melhor desempenho, seja em campeonatos, retorno melhor com patrocinadores, apresentado programa de televisão, sendo jornalista... O mais importante é você correr atrás e dar duro. Hoje em dia, as mulheres pararam de ficar batendo nessa mesma tecla de que 'o surfe feminino não tem apoio'. Isso é mentira. Você vê várias empresas grandes patrocinando atletas, o Circuito Brasileiro feminino com mais etapas do que o masculino, o que nunca aconteceu... Acho que as atletas já saíram desse momento de ficar reclamando e já estão vivendo uma fase muito melhor.