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Pela 1ª vez com o filho, Alejo quer repetir vitória no US Open por volta ao WCT

Por Guilherme Dorini

Alejo Muniz está cada vez mais próximo de voltar ao Circuito Mundial de Surfe (WCT). Depois de liderar boa parte da divisão de acesso (WQS), o argentino radicado no Brasil, mais especificamente em Santa Catarina, já conseguiu todos seus backups necessários no começo da temporada e agora depende, praticamente, de um ótimo resultado em uma das grandes etapas para carimbar de vez sua vaga na elite do próximo ano. E isso pode já acontecer nesta semana, quando o surfista participará do tradicional Vans US Open of Surfing, no qual já foi campeão. Para repetir a façanha, ele ainda terá um aditivo especial: pela primeira vez terá ao lado, em uma competição, Martín, seu filho recém-nascido.

Reprodução / Instagram

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"Meu filho nasceu em janeiro, foi a melhor sensação que já tive na vida. Estou muito feliz com isso, tenho aprendido muito, apesar de ele ter apenas seis meses. Quero tentar minha classificação por ele esse ano, como se fosse um presente para ele. Está sendo muito legal, estamos curtindo pra caramba", relatou Alejo em um bate-papo com o Série ao Fundo nesta semana, antes de revelar que essa também será a primeira viagem do pequeno Martín para assistir ao pai em uma etapa.

"Essa vai ser a primeira vez que a Amanda (esposa) e meu filho vão viajar comigo para um campeonato. Vai ser massa pra caramba! A Amanada já foi em alguns, mas, com ele, vai ser a primeira vez. Meu irmão [Santiago Muniz] também vai estar lá, que é quem sempre viaja comigo, como estamos correndo o WQS juntos há alguns anos. Vai ser muito massa", completou.

Reprodução / Instagram

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Apesar da felicidade estar completa pelo lado familiar, Alejo viveu um começo de ano conturbado na parte profissional. Após não conseguir a vaga para este ano, ele ainda anunciou em dezembro o fim de sua parceria com a Hurley/Nike, marcas que o patrocinaram durante sete anos. Mesmo sem patrocínio de bico, o brasileiro continuou na luta e viu a situação melhorar pouco a pouco - principalmente com ajuda de marcas "caseiras", de Santa Catarina.

"Ano passado encerrei meu contrato com a Hurley e a Nike, mas sou totalmente agradecido por tudo que eles fizeram por mim. Me apoiaram por sete anos, foram anos muito especiais. Comecei o ano sem patrocínio de bico, mas as coisas foram melhorando, acabei fechando com a Di Colore, cosméticos, aqui de Santa Catarina. Me ajudaram muito para as viagens, para a Austrália. Agora, antes de Ballito, apareceu a Vida Marinha, que é meu patrocínio de bico - uma empresa catarinense também, com história no mercado do surfe. Muito feliz por representar eles e ter um patrocínio de Santa Catarina para me ajudar a competir. Também tenho a Dragon, de óculos, há mais de seis anos, e a Nosso Lar, uma construtura com um time muito grande de surfistas", disse. 

TOM BENNETT / WSL

TOM BENNETT / WSL

Com um bom desempenho no começo do ano, principalmente com a final no Vissla Sydney Surf Pro, Alejo conquistou pontos importantes, assegurando um quarto lugar no ranking geral do WQS - os dez primeiros garantem vaga no WCT. Os resultados servem como bons backups, fazendo com que o brasileiro precise de uma boa performance em um Prime para, praticamente, decretar seu retorno à elite. 

"Estou em quarto, liderei grande parte do circuito, mas ainda não tinha rolado nenhuma etapa Prime. A galera costuma dizer que [o WQS] começa depois de Ballito. Consegui bons resultados no começo do ano, que foram importantes, principalmente a final na Austrália. Hoje, é como se eu já tivesse todos os meus backups, prontos, agora eu preciso buscar um resultado grande em um Prime para me colocar em uma posição muito boa. Se ganhar um Prime, já praticamente me garante ano que vem", analisou.

Alejo foi campeão do US Open em 2013 / WSL

Alejo foi campeão do US Open em 2013 / WSL

"Os Primes são os mais importantes do ano. São os eventos onde você tem que passar menos baterias para alcançar uma maior quantidade de pontos. Para um cara fazer a mesma pontuação que fiz na Austrália, por exemplo, que são os quatro mil pontos, ele precisa de um nono lugar, eu precisei chegar até a final. Tem muita diferença de um Prime para um seis mil, que já é uma etapa muito importante", explicou Alejo, antes de falar sobre sua expectativa para o US Open, que tem janela de competição aberta a partir da próxima segunda-feira (30).

"Expectativa para o US Open é muito grande. Estou me sentindo bem, já venci no passado, vou com a minha família... Tem tudo para dar certo. Preciso até tomar cuidado para não criar muita expectativa, manter os pés no chão e fazer o meu melhor", concluiu o surfista, que já foi campeão desta mesma etapa em 2013, quando bateu na final o dono da casa Kolohe Andino.
 

Campeão em Nazaré, Chumbo sonha com XXL e título mundial de ondas gigantes

WSL / ANTOINE JUSTES

WSL / ANTOINE JUSTES

Por Guilherme Dorini

“Expectativa baixa, objetivo alto e trabalho constante. Assim, a gente chega longe”. Esse é o ditado que guia a jovem, mas já muito bem sucedida, carreira de Lucas Chianca, o Chumbo, grande revelação brasileira no surfe de ondas gigantes. Treinado por Carlos Burle, o carioca de apenas 22 anos roubou a cena no começo deste ano ao faturar o Nazaré Challenge, última etapa do Mundial de Ondas Gigantes (BWT), e terminar a temporada na quinta posição geral.

Chumbo conversou com o Série ao Fundo para contar todos os detalhes de sua promissora carreira: desde os tempos em que trabalhava no Havaí para pagar suas viagens para Jaws, até o momento que se conectou com Burle e decidiu apostar todas as suas fichas no surfe de ondas gigantes – onde sonha se tornar campeão mundial.

“Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré. Foi aí que nos  conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour (BWT), esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos pela Performance of the Year”, contou ao SAF.

Além do BWT, Lucas revelou que disputará algumas etapas da divisão de acesso do surfe mundial de pranchinha (WQS) e que está ansioso para a premiação do Big Wave Awards, que acontece neste mês. O brasileiro concorre com quatro ondas na categoria "Maior Onda na Remada" e uma na "Melhor Performance Masculina".

Confira o bate-papo na íntegra com Lucas “Chumbo” Chianca:

Série ao Fundo: Como foi seu começo no surfe?

Lucas Chianca: Eu comecei a surfar em Saquarema (RJ), com meu pai, quando eu tinha três anos de idade. Eu era bem molequinho, só por esporte mesmo. Foi uma coisa que foi crescendo, competindo no amador, até os 17 anos, quando virei profissional. Sempre fui pelo caminho do surfe de ondas pequenas, mas me destacava mais nos mares de ondas grandes. Quando eu fiz 18 anos, e tive aquela pequena independência dos pais, fui para Jaws (HAV) pela primeira vez... Foi aí que foi embalando. Depois dessa viagem eu comecei a gostar mais [de ondas gigantes].

SAF: A ideia inicial era de virar profissional na pranchinha, né? Como era isso na sua cabeça?

LC: A ideia inicial antes era disputar WQS, entrar para o WCT e ser campeão mundial. Só que eu sempre gostei mais de onda grande, tinha um apego maior quando o mar subia... Eu ficava mais confortável, mais atirado... E deu certo! Acho que agora mudei para o esporte certo. Nas ondas pequenas, quando o WQS estava com onda muito pequena, acabava me atrapalhado um pouquinho, não era meu forte... Tem aqueles "maroleiros ratos" sempre (risos).

SAF: O desgaste que é disputar o WQS, além da parte financeira, também pesou na sua decisão?

LC: Com certeza. Desde quando comecei o WQS, eu já não tinha patrocínio. Então, era sempre do meu bolso, meu pai me ajudando... Era muito difícil manter isso e dar uns tiros para Big Wave... Todo dinheiro que eu fazia no WQS, eu guardava e investia em uma trip de onda grande, que era o que eu gostava. Comecei a fazer vários WQS, fui melhorando, fiz um ano bom, lucrei um dinheirinho e fui para Mavericks (EUA). Lá eu me apaixonei de uma forma... Soube que queria aquilo para mim, mas não sabia qual era o caminho para entrar no Big Wave Tour, como fazer... Foi aí que meu tio, Marcos Monteiro, que me levou em Mavericks pela primeira vez, me conectou com o Carlos Burle, que é meu treinador agora. Trilhamos um caminho e deu um pouco certo.

SAF: E que ano foi essa "virada de chave"?

LC: Foi em outubro de 2016. Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré (Portugual). Meu tio não conseguiu ir junto dessa vez, mas eu fui com o Burle. Foi aí que conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour [de big wave], esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos entrar no Big Wave World Tour pela Performance of the Year.

SAF: E você lembra como foram as primeiras experiências em ondas grandes?

LC: Na verdade, eu sempre gostei muito. Desde moleque eu ia para o Havaí, com 14 anos, já surfava Waimea grande, 18 pés, 20 pés... Sempre quis ir para Jaws. No primeiro ano, meu pai não tinha deixado, no segundo não deixou de novo... Aí no terceiro ano, eu já tinha 18 anos, trabalhei no Havaí, comprei minha primeira passagem para Jaws e fui ver a realidade, né? Waimea é uma onda bizarra, mas não é igual Jaws, Mavericks, Nazaré, Puerto Escondido... Essas ondas que são power. Waimea é mais soft assim, abraça a gente, é mais fácil. Na minha primeira vez em Jaws, já peguei um swell gigante, já consegui pegar algumas ondas e me dar bem no pico. Fiquei muito feliz, já me apaixonei pela parada. Dropar uma onda gigante foi a coisa mais feliz da minha vida. E queria repetir isso. Continuei trabalhando no Havaí, indo para Jaws em todo swell, com uma prancha só, e deu certo. Fiz a temporada, três Jaws... Levei até meu irmão nessa temporada, ele tinha 14 anos, pegou uma bomba também...

SAF: Você trabalhava com o que no Havaí para conseguir esse dinheiro?

LC: No Havaí, eu trabalhava de pedreiro, jardineiro e fazendo comida em um food truck. E aí, eu fiz uma grana, consegui juntar um dinheiro forte para viajar três vezes para Jaws, comprar duas pranchas...

SAF: E você ficou nessa por quanto tempo?

LC: Fiz quatro meses de trabalho.

SAF: Mas valeu a pena, né?

LC: Valeu, valeu muito a pena. Foi o pontapé.

SAF: E como é a vida de um big rider? Viver em torno de um swell...

LC: A vida de big rider não é fácil, né. É mais ou menos isso aí mesmo. A gente tem que estar 365 dias do ano pronto para, quando acontecer [um swell], estar 100% pronto para o que vier. Só sabemos dos swells uns cinco dias antes. Então, temos que ter a vida livre. Não posso marcar um eveto para daqui um mês, nunca sei se vou estar daqui um mês no Brasil, ou na Austrália... Nossa vida não é tão um mar de rosas que tudo mundo pensa. A gente viaja, vai para uns lugares irados, pega várias ondas, mas temos que estar prontos para viajar em qualquer momento e circunstância - dormindo em aeroporto, fazendo escalas gigantes... Temos que chegar naquela hora, naquele momento e pegar a hora boa do mar.

SAF: Já deve ter rolado várias frustrações também...

LC: Isso é uma coisa que temos que estar dispostos, pode acontecer. Sempre muda um pouquinho, o vento sempre muda, o swell muda, aumenta, diminui... É a mãe natureza, ela que manda, temos que estar sempre abertos para o que ela vai entregar para a gente.

SAF: Vamos falar da parte financeira. A conta está fechando?

LC: A conta ainda não fecha, a gente investe mais do que ganha, mas é meu sonho, o esporte que amo, meu trabalho. Vou continuar investindo, tenho recebido uns bons frutos... Deu para dar uma respirada depois que ganhei o Nazaré Challenge, para começar esse ano... Se não fosse isso, a gente ia fechar a conta no negativo total esse último ano.

SAF: O apoio é diferente para quem está no big wave ou na pranchinha?

LC: Na verdade, é o mesmo apoio, estou aberto aos patrocínios, tenho dois que me ajudam muito, que é a Blu-X e o Spoleto, que são os que me ajudam financeiramente. Também tenho outros co-patrocínios. Spoleto bancou meu tour esse último ano, a Blu-X estamos em uma campanha com eles, temos trabalho legal juntos... Mas as marcas em si não estão muito felizes com a economia e não sei por que não estão patrocinando a gente, mas vamos esperar, vai que uma hora da certo.

SAF: E vencer a etapa em Nazaré foi o auge...

LC: Pô, Nazaré foi incrível, parece que nem aconteceu. Foi um sonho realizado. Foi muito trabalho. Eu e o Burle trabalhamos muito para isso, investimos pesado, queríamos muito que isso acontecesse. No ano passado, tive minha lesão no início, que foi uma coisa que me bloqueou bastante. Quebrei o perônio e rompi dois ligamentos do tornozelo... Fiquei quatro meses em reabilitação, mas depois de dois meses já estava de pé, surfando de novo... Meu objetivo já era ser campeão mundial, bater de frente no tour, conseguir um espaço lá dentro... Mas Deus sabe o que faz, ele que escolhe. Foi bom para mim [a lesão], um aprendizado e amadurecimento gigante para mim. Passei por cima com tudo. Perdi a etapa de Puerto Escondido, que era a etapa que eu sonhava em competir, e talvez esse ano nem role, mas fui com tudo para as outras etapas. A primeira etapa foi em Jaws, tive um desempenho muito bom, mas calhei de cair em uma superheat, a segunda semifinal, só com notas altas, fiquei em quinto e terminei em 9º no geral. Estava treinando muito, queria minha reclassificação para o BWT, precisava de uma final e deu certo. Fui para Nazaré com sangue no olhos, já tinha gastado quatro vezes em Nazaré, estava pronto, sabia tudo que ia acontecer naquele evento. Cheguei muito bem, com o Burle, foi um sucesso, estava confortável e seguro para tudo que viesse. Acho que ganhei por isso. Tive muita ajuda de todo mundo para realizar meu sonho e consegui colocar o Brasil de novo no lugar mais alto do pódio.

SAF: E depois ainda teve o Capítulo Perfeito...

LC: No Capítulo Perfeito, mais uma vez a minha experiência ali em Nazaré me deixou muito a vontade. Muito tempo que eu não encostava na prancha pequena, só surfando de gunzeira, de prancha de town in... Quando encostei, foi dois dias antes do evento para treinar. Consegui colocar a prancha no pé, me entender... Nazaré conheço bastante aquela onda, consegui me posicionar no campeonato inteiro... Que pena que não ganhei, estava com tudo para ganhar, só não consegui achar as ondas ali no final, mar já estava bem ruim. Tudo que eu colhi esse ano foi muito bom, estou muito grato. Espero que logo mais apareça alguma marca para me patrocinar.

SAF: Nós vimos você atacando as ondas em Nazaré. Já é uma evolução no Big Wave?

LC: Acho que a nova geração tem vindo com uma cabeça um pouco diferente. Como batemos muito de frente no WQS, competição, a molecada treinando muito para ser WCT... Quando descobre a paixão pelas ondas gigantes, acabamos atuando diferente. Acho que a "velha geração" - eles são novos ainda e botam para fuder com a gente ainda -, abriram as portas, mas hoje estamos chegando com outra pegada, outra performance, outra visão da onda. Não queremos só sobreviver na onda, queremos performar e conseguir fazer o nosso melhor na onda, né?

SAF: E como é o relacionamento com o Burle?

LC: Eu dou graças a Deus por ter o Burle do meu lado. Acho que foi essencial, um ponto alto na minha carreira. Com ele, trabalhamos minha cabeça melhor para competir nas ondas gigantes, me adaptar ao novo mundo das ondas gigantes. Eu falo que ele é a experiência e eu sou o talento e o cavalo. Ele coloca a rédea e o cavalo está dando certo, é um cavalo de raça, que é só adestrar e colocar certinho. Ele é como se fosse uma família para mim. Agradeço ao meu tio Marquinhos, que foi quem nos conectou. O Burle mudou minha cabeça, minha vida. Não só a minha, mas da minha família. Pensamos diferente. Foi muito importante na minha vida. Não só conhecer ele, mas trabalhar com ele. É incrível. É uma gratidão eterna.

SAF: E quais são os planos e objetivos para o futuro?

LC: Se a gente for falar de futuro próximo, estou indo para o XXL em abril, dia 24 é a festa, tenho muitas ondas concorrendo, conto com a torcida de todo mundo. É difícil ganhar, mas estamos bem, concorrendo com ondas muito boas. Futuramente, é continuar trabalhando, produzindo conteúdo, esperando os eventos de onda grandes, esperando as ondulações chegarem a algum lugar do mundo para ir atrás delas. Esse ano vou correr alguns WQSs também, vou tentar investir para não ficar muito parado, manter um ritmo de competição. Essas são minhas metas. Quero muito levar o Brasil para o pódio, ser campeão mundial e espero que isso seja breve.

SAF: E disputar o WQS é só para manter o ritmo mesmo?

LC: Acho que é só para manter um ritmo de competição, uma estratégia minha, não conta para ninguém (risos). [É bom para] manter aquele ritmo, aquele surfe afiado e aquela adrenalina da competição sempre em dia, sabe? Aquele milésimo de segundo que você pensa rápido na competição muda tudo.

SAF: Mas ainda existe a chance de mudar sua cabeça e tentar entrar para o WCT?

LC: Isso é uma ideia longe, nem passa pela minha cabeça agora. Vou competir WQS, se eu passar baterias, vou fazer pontos, se ganhar muitos pontos, vou classificar para os Primes... Quero escolher bastante as etapas que quero competir, para ir em ondas boas, que consiga surfar melhor. Então, não vai ser um investimento total, full time, no WQS, mas vou dar os tiros certos nas etapas boas para tentar resultados bons. E, talvez, algum dia, se eu entrar no Prime, acho que podemos pensar mais no WCT. Mas seu sonho sempre foi ser campeão mundial e é cada vez maior na disputa de ondas grandes, é o que mais amo na vida nesse momento, eu acho.

Promessa brasileira, Mateus Herdy foca no WQS e já traça planos por WCT

Por Guilherme Dorini

Considerado uma das maiores revelações dos últimos anos, Mateus Herdy chega com tudo para sua primeira temporada completa na divisão de acesso do surfe mundial (WQS). Com apenas 17 anos, o brasileiro de Florianópolis terá a oportunidade de disputar pela primeira vez as principais etapas do WQS, e já com um claro objetivo: entrar para o Circuito Mundial de Surfe (WCT) no máximo em 2020 – isso se já não conseguir uma vaga para o próximo ano.

Mateus Herdy / Foto: Divulgação

Mateus Herdy / Foto: Divulgação

Depois de participar as duas maiores etapas da perna australiana do WQS, em Newcastle e Sydney, ambas valendo 6 mil pontos, Herdy, que ainda estava na Oceania, conversou com o Série ao Fundo para falar um pouco da sua carreira, amadurecimento profissional e seus objetivos e metas para essa temporada.

“Minha meta é entrar, se não for esse ano, no ano que vem. Quero entrar o mais rápido que eu posso. E, quando entrar, não quero sair. Sou novo, meu corpo ainda está desenvolvendo, ainda estou crescendo... Já troquei uma ideia com a Quiksilver, que é meu parceiro novo, para fazer trips [viagens] para ganhar mais experiência. Se eu não entrar esse ano, será um ano de preparação, mais experiência e força. Se eu treinar e dar o meu melhor, acredito que tudo vai acontecer”, disse ao SAF.

Filho do big rider Alexandre Herdy e sobrinho do ex-top do WCT Guilherme Herdy, Mateus já está acostumado com competições, já que disputou sua primeira etapa do WQS com apenas 14 anos de idade. Para a sequência de sua carreira, seus principais investimentos vêm da Red Bull, patrocinador de bico da prancha e boné, e da Quiksilver, acordo recém-fechado para borda e roupas diárias.

Confira o bate-papo completo com Mateus Herdy:

Série ao Fundo: Você já vem de uma família de surfistas. Acredito que escolher por essa profissão foi um caminho natural para você. Como foi isso dentro da sua casa?

Mateus Herdy: Em casa foi muito tranquilo. Minha família sempre me apoiou bastante. E hoje em dia existe bem menos preconceito com surfistas do que tinha antigamente. Na escola, a maioria dos professores gostava bastante, nunca tive problema quanto a isso, apesar de alguns não entenderem muito bem por que eu faltava e uma galera ainda pensava que era só curtição... Mas nem se compara com a época em que meu tio competia... Hoje temos o OFF, o Série ao Fundo... A mídia está muito maior... Tem o Gabriel (Medina), que mostrou que o surfe não é esporte de vagabundo.

SAF: Você está só com 17 anos, mas já compete desde criança. Como foi conciliar a carreira com os estudos?

MH: Então, eu tive que largar a escola. Foi uma conversa que tive... A parte da família do meu pai, todo mundo é médico - foi bem difícil convencer eles. No Brasil, existe essa lei que não pode ter "home school", não posso fazer depois. Para eu começar a fazer o WQS, e ir atrás dos meus sonhos, tive que largar a escola. Com 18 anos, eu vou poder fazer um supletivo para terminar. Então, eu parei no segundo ano do ensino médio.

SAF: Sua trajetória no WQS começou muito cedo, né?

MH: Meu primeiro WQS (etapa) foi quando tinha 14 anos, na Argentina, fiz oitavas de final, não esperava, me dei muito bem, passei umas cinco baterias. Foi muito bom para o primeiro WQS. Depois, continuei nos amadores, fiz bons resultados nos Pro Juniors, e ano passado foi quando decidi começar mesmo. De 15 para 16 anos que comecei a focar... No meio do ano que consegui virar Prime – fui para Cascais, Triple Crown... Esse ano é, de fato, o primeiro ano que estou competindo ele inteiro. Com a pontuação adquirida, posso disputar todas as etapas que não pude competir no ano passado.

Mateus Herdy no QS de Mar Del Plata (ARG). / Foto: Beto Oviedo

Mateus Herdy no QS de Mar Del Plata (ARG). / Foto: Beto Oviedo

SAF: Quais são as principais dificuldades neste começo de WQS?

MH: A galera meio que reclama mais, mas eu, particularmente, não tenho problema com isso, que é o número de eventos. Estamos sempre viajando. Temos que ir para os eventos 3 mil, não são só os 6 mil ou 10 mil... Eu, que estou no início, estou atrás de milhas, eu ainda não tenho tantas quanto, por exemplo, o Thiago Camarão, que está competindo há tempos... Eles já viajam mais de primeira classe, e eu ainda no canil (risos), lá atrás... Pegar avião cansa, passar a noite em aeroporto... Essa viagem mesmo para a Austrália, fiz: Florianópolis, Rio de Janeiro, Miami, Los Angeles e Sydney. Cheguei completamente acabado, três dias de viagem... Você não come, não dorme bem... Gostaria mais se o WQS fosse dividido em pernas... Ano passado, por exemplo, fui para uma etapa no Japão, gastei a maior grana, perdi de cara e tive que voltar para casa. Poderia ser um pouquinho mais organizado.

SAF: Deve-se gastar muito dinheiro também. A conta fecha?

MH: Fechei com a Quiksilver de borda agora, meu patrocinador de roupas normais, e de bico fechei com a Red Bull, que também está no boné... Eu sou novo, tem bastante investimento em cima de mim... Eu estou bem, posso viajar, fazer o que quiser, a conta está fechando. Mas, no Brasil, na nossa idade, acho que só eu e o Samuel Pupo que temos essas condições. A realidade é que a maioria da galera está sofrendo para viajar três vezes no ano. Moleque da nossa idade, que já competiu e era para estar aqui competindo com a gente, não tem condições financeiras... E ainda tem uma galera do WQS que precisa ficar na casa de amigo...

SAF: Quem costuma te acompanhar nas viagens?

MH: Até o ano passado, eu viajei algumas vezes com o Ian Tavares, um amigo meu que filma e faz um bom trabalho. Mas a maior parte do ano eu viajei sozinho, totalmente sozinho... Ano passado eu gastei muito dinheiro na perna da Austrália, então, no resto do ano, tive que ir sozinho e guardar um pouco. Esse ano, fiz esses eventos aqui na Austrália com meu tio, Guilherme (Herdy), que tem bastante experiência... Até hoje, a maioria das viagens foi sozinho.

SAF: Quais são suas metas profissionais? Quando planeja entrar para o WCT?

MH: Eu tenho minhas metas, né? Acho que todo mundo tem... Eu quero muito entrar, acredito que vou entrar... Minha meta é entrar, se não for esse ano, no ano que vem. Quero entrar o mais rápido que eu posso, e, quando entrar, não quero sair. Sou novo, meu corpo ainda está desenvolvendo, ainda estou crescendo... Já troquei uma ideia com a Quiksilver, que é meu parceiro novo, para fazer trips para esses lugares tipo Fiji, Teahupoo, para ganhar mais experiência. Se eu não entrar esse ano, será um ano de preparação, mais experiência, força e para aprender ainda mais em lugares em que o Brasil não tem oportunidade de ter. Se eu treinar e der o meu melhor, acredito que tudo vai acontecer.

SAF: Para onde mais gostaria de ir?

MH: Eu quero ir para Fiji, Teahupoo... Quero ser o tipo de cara que é bom em tudo, quero ser o mais completo possível, sei que preciso melhorar, perder o medo de ondas gigantes, criar técnica em tubo para os dois lados... Quero muito ir para o México, que eu ainda não fui, é um sonho de criança ver aquelas direitas, ainda mais que sou regular. Tem muito lugar no mundo que eu acho que tem altas ondas e ainda não fui. Fui para a África do Sul, fiquei 45 dias lá, e não surfei J-Bay!

SAF: Você citou muitas ondas pesadas, tubulares... Acredita que é nessa característica que ainda precisa melhorar?

MH: Eu diria que sim. Lá em Floripa, temos tubos algumas vezes, mas não se compara com os havaianos (risos)... Particularmente, o que acho que falta no meu surfe, mas é mais questão de tempo, é o power, ganhar força, manobras que os juízes dão muita nota, e os tubos... O problema é que não temos tubo nenhum no WQS, sabe? Então, se falar para WQS, me falta o power, mas para WCT... Como é que vou ganhar do John John em Teahupoo se eu nunca fui para lá e se não entubo?

SAF: E das etapas do WQS? Ansioso para alguma em especial?

MH: Sri Lanka é uma onda que eles estão tentando, não é certo que vai rolar, mas dizem que é uma direita muito boa. E uma que não vejo a hora de ir é o US Open.

SAF: Além do seu tio e seu pai, quais são suas inspirações no surfe?

MH: Eu gosto muito de ver todos os surfistas que são completos. Para mim, um cara que é muito completo é o Julian Wilson, que sempre cito... Ele surfe de backside, frontside, da aéreo, surfa muito de borda, pega tubo para os dois lados. É muito completo em relação ao surfe, talvez não tão competitivo quanto o Gabriel (Medina) e o John (John Florence), mas ele é muito completo. Tem também o Gabriel e o John John... São esses caras que estou acompanhando bastante.

SAF: E daqueles que ainda estão brigando por um espaço?

MH: Vitinho Bernardo está sempre provando, o Deivid (Silva), que ganhou aqui agora, é um cara muito completo, você vê ele em umas condições... Jogando muita água, fora do normal. Tem o Samuel (Pupo), sem comentários, surfa muito. Tem o João Chumbinho. Tem um cara que está vindo do Brasil que acho que vai destruir todo mundo é o Eduardo Motta, fiz a trip com ele para Mentawai... Entre os mais novos, ele destruiu: pega tubo, quebra, já falei para ele vir para o WQS. Tem muita gente na verdade, os brasileiros surfam muito. Todos são meus parceiros. O Yago (Dora) já é WCT, né? Mas é impossível não falar dele. Toda vez que eu estou surfando, e estou rendendo, eu penso: 'o Yago teria feito o dobro disso'. Toda vez que viajei com ele, ele rende, não cai [de rendimento] nunca.