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Nicole Pacelli rejeita rótulo de “musa”, relembra trajetória e mar assustador

CAMPEÃ MUNDIAL DE STAND UP PADDLE ACHA RUIM SER ROTULADA E RECORDA DE QUANDO NÃO CAIU NO HAVAÍ: "ATÉ O KELLY DESISTIU"

 Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Por Guilherme Dorini

"A mulher tem que ser mais que um rosto bonito". É assim que pensa Nicole Pacelli, tratada como "musa do surfe" no começo da carreira, rótulo que ela faz questão de afastar a cada conquista e feito realizado. Aos 26 anos, a brasileira, criada em uma família de surfistas, já foi campeã mundial de stand up paddle, finalista do Big Wave Awards e sonha em entrar no Mundial de Ondas Gigantes (BWT) da World Surf League.

Em um bate-papo com o Série ao Fundo, Nicole lembrou os primeiros passos de sua carreira no esporte, como fez para decidir entre a faculdade ou se profissionalizar no esporte, a transição para o SUP, a primeira queda em ondas gigantes, momento do surfe feminino e os piores, e melhores, momentos dentro do mar. 

CONFIRA O BATE-PAPO COMPLETO COM NICOLE PACELLI:

Série ao Fundo: Como foi seu começo no surfe?

Nicole Pacelli: Eu comecei a surfar de pranchinha, quando eu era bem pequena. Nem lembro, exatamente, da primeira vez que subi em uma prancha. O problema é que meus pais se separaram e eu acabei me mudando para São Paulo. Então, vive a maior parte na capital, mas vindo todo final de semana para a praia. Tinha aquela coisa: queria estar na água, mas não era algo que podia fazer todos os dias. Acho que isso fez aumentar minha paixão.

 Reprodução/Instagram

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SAF: E como foi virar profissional?

NP: Eu não sabia se seria profissional ou não. Eu achava que não, na verdade. Como é possível alguém ser surfista profissional vivendo em São Paulo? (risos)

SAF: Como foi a transição da pranchinha para o stand up paddle?

NP: Foi quando meu pai trouxe uma prancha de stand up paddle para o Brasil. Eu deveria ter uns 16 anos. Ainda nem tinha no Brasil. Foi meio que um desafio pegar uma onda com aquela prancha. E falei que ficaria boa nisso. E foi assim. Comecei a competir, mas tinha pouca gente, então competia com os homens. E ainda morava em São Paulo.

SAF: Como foi conciliar estudos com o surfe?

NP: Eu estava surfando bem de stand up, já gostava de ondas grandes... Eu lembro bem, eu entrei na Universidade de São Paulo (USP) e consegui um patrocínio. Meu pai sempre me apoiou, mas sempre tinha aquele pé atrás, porque fica de surfista não tem as coisas garantidas, né? Então fiz Educação Física. Eu queria alguma coisa que, mais para frente, pudesse relacionar com o surfe.

SAF: E quando você começou a viajar pelo surfe?

NP: Teve uma época que eu queria ir muito para o Havaí, em 2011, e falei pros meu pais: "passei na faculdade, posso ir para lá?" E fui no final do ano. Chegando lá, eu com 19 anos, não via muitas meninas em mares grandes. Era eu e minha irmã. Nunca tinha feito uma viagem de surfe. Fomos para Mauí e já ia quebrar Jaws.

SAF: E como foi a primeira caída?

NP: Era época do tow-in ainda, só tinha um cara remando, que eu nem sabia quem era. Depois fui descobrir quem era, era o Márcio Freire (risos). Meu pai foi quem me puxou na primeira onda, foi irado, uma das melhores sensações da minha vida. Uma sensação muito especial. Foi então que fui perceber que, talvez, eu levava jeito para a coisa.

SAF: Você voltou para o Brasil e começou a competir?

NP: Voltei para o Brasil querendo ainda mais ser profissional, mas na época não tinha Mundial de Stand Up. Então, no outro ano, em Sunset, corri um campeonato com os homens, porque não tinha para mulheres. E acabei indo bem. Todos os caras que eu admirava vieram falar comigo. Foi uma realização muito grande. Depois anunciaram que no próximo ano, em 2013, já teria a primeira edição do feminino.

SAF: E já veio seu primeiro título mundial, né?

NP: Isso. Eu estava na faculdade, continuei cursando, não sabia direito o que seria. Mas já era patrocinada pela Roxy. Mas era meu ano, era o último da faculdade e precisava decidir. Então decidi trancar, já tinha bombado em algumas matérias por faltas por conta das viagens. Foi quando fui campeã mundial, competição da ISA.

SAF: Acha que as pessoas tendem a valorizar menos seu título por não ser da WSL?

NP: Muito. A WSL é muito valorizada hoje em dia. Sempre que falo do meu campeonato me perguntam isso: 'ah, mas é da mesma organização do Medina?" Eles têm muito mais mídia, visibilidade. Acho que as pessoas nem sabem muito das outras organizações. Só quem acompanha mesmo o esporte.

SAF: Você já foi finalista do Big Wave Awards e sonha em entrar no Big Wate Tour. Mas teve algum dia que olhou o mar gigante, sentiu medo e preferiu não cair?

 Hugo Silva/Red Bull Content Pool

Hugo Silva/Red Bull Content Pool

NP: Eu lembro de dois dias. Teve um dia que pensei 'já era'. Era uma onda que quebrava no meio do mar, em Oahu. Eu nunca tinha caído em um mar tão grande e 'sozinha', estava só eu e o Lapinho. Estava demorando muito e, como você não vê a praia, não tem ponto de referência, não sabe se está no lugar certo... Você perde a noção depois de 30 minutos sem onda. De repente, veio uma série, e eu estava no pior lugar. Devia estar uns 15 a 18 pés, buraco... Tomei todas na cabeça... Era meu começo, depois da terceira, achei que ia morrer. Tive um sentimento estranho, que nunca tinha tido. Depois de tudo, voltei para o fundo e vi que não dava. Foi a primeira vez que tinha tomado uma série assim, que tive medo. Às vezes é bom acontecer. Na hora eu fiquei desesperada, mas não aconteceu nada. Serviu para me mostrar que estava preparada.

SAF: E o outro?

NP: Foi no último El Niño que teve, quando rolou o Eddie Aikau em 2016. O mar estava todo torto, horrível. Estava eu e a Silvia (Nabuco) fora do mar. A gente: "e aí, vamos surfar? Vamos." Mas estava fechando a baía de dez em dez minutos. A galera que estava dentro só estava tomando vaca, poucas pessoas, só os cascas grossas. Quando falamos "vamos", veio a maior série do dia, o Kelly (Slater) estava tentando entrar, todo mundo foi varrido. Ele tentou de novo, não entrou! O Kelly, que é o Kelly, teve que sair pelas pedras, lá fora, desistiu (risos). Depois disso, desistimos e não entramos. (risos) Quando você começa a ficar com dúvida, é melhor não ir.

SAF: Mudando de assunto, como você vê o cenário do surfe feminino no Brasil?

NP: Acho que, quando eu comecei, já 'velha', não tinha campeonato para meninas. Várias estavam perdendo patrocínio... De lá para cá, acho que está melhorando. Temos vários campeonatos só para meninas, várias marcas de coisas femininas investindo e patrocinando, como shampoo, cremes... Acho que é uma boa hora. Todo mundo está ganhando mais visibilidade.

SAF: Você já foi rotulada como “musa do surfe”. Isso te incomoda?

 Robert Astley Sparke/Red Bull Content Pool

Robert Astley Sparke/Red Bull Content Pool

NP: Acho isso ruim. Tem várias marcas que focam mais na beleza, em um padrão de beleza... Acho que não pode ser só isso. Tem várias meninas que estão surfando muito, mas estão sem patrocínio. Do outro lado, várias que são 'modelinho', tão ganhando coisas... Ainda mais com Instagram. Algumas sequer surfam, só posam com a prancha, são bonitas e ganham bem. Acho isso ruim. Sempre tento passar a imagem de que a mulher tem que ser mais que um rosto bonito. Não só no surfe, mas em tudo. Em redes sociais, por exemplo, existem umas meninas com milhões de seguidores, mas que não passam nada. É só o corpão, roupa... Por isso sempre tentei passar uma outra imagem. Sempre tentei inspirar outras mulheres de alguma forma. Eu não quero passar essa imagem, de que só tenho patrocínio por fotografar bem.