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Campeão em Nazaré, Chumbo sonha com XXL e título mundial de ondas gigantes

 WSL / ANTOINE JUSTES

WSL / ANTOINE JUSTES

Por Guilherme Dorini

“Expectativa baixa, objetivo alto e trabalho constante. Assim, a gente chega longe”. Esse é o ditado que guia a jovem, mas já muito bem sucedida, carreira de Lucas Chianca, o Chumbo, grande revelação brasileira no surfe de ondas gigantes. Treinado por Carlos Burle, o carioca de apenas 22 anos roubou a cena no começo deste ano ao faturar o Nazaré Challenge, última etapa do Mundial de Ondas Gigantes (BWT), e terminar a temporada na quinta posição geral.

Chumbo conversou com o Série ao Fundo para contar todos os detalhes de sua promissora carreira: desde os tempos em que trabalhava no Havaí para pagar suas viagens para Jaws, até o momento que se conectou com Burle e decidiu apostar todas as suas fichas no surfe de ondas gigantes – onde sonha se tornar campeão mundial.

“Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré. Foi aí que nos  conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour (BWT), esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos pela Performance of the Year”, contou ao SAF.

Além do BWT, Lucas revelou que disputará algumas etapas da divisão de acesso do surfe mundial de pranchinha (WQS) e que está ansioso para a premiação do Big Wave Awards, que acontece neste mês. O brasileiro concorre com quatro ondas na categoria "Maior Onda na Remada" e uma na "Melhor Performance Masculina".

Confira o bate-papo na íntegra com Lucas “Chumbo” Chianca:

Série ao Fundo: Como foi seu começo no surfe?

Lucas Chianca: Eu comecei a surfar em Saquarema (RJ), com meu pai, quando eu tinha três anos de idade. Eu era bem molequinho, só por esporte mesmo. Foi uma coisa que foi crescendo, competindo no amador, até os 17 anos, quando virei profissional. Sempre fui pelo caminho do surfe de ondas pequenas, mas me destacava mais nos mares de ondas grandes. Quando eu fiz 18 anos, e tive aquela pequena independência dos pais, fui para Jaws (HAV) pela primeira vez... Foi aí que foi embalando. Depois dessa viagem eu comecei a gostar mais [de ondas gigantes].

SAF: A ideia inicial era de virar profissional na pranchinha, né? Como era isso na sua cabeça?

LC: A ideia inicial antes era disputar WQS, entrar para o WCT e ser campeão mundial. Só que eu sempre gostei mais de onda grande, tinha um apego maior quando o mar subia... Eu ficava mais confortável, mais atirado... E deu certo! Acho que agora mudei para o esporte certo. Nas ondas pequenas, quando o WQS estava com onda muito pequena, acabava me atrapalhado um pouquinho, não era meu forte... Tem aqueles "maroleiros ratos" sempre (risos).

SAF: O desgaste que é disputar o WQS, além da parte financeira, também pesou na sua decisão?

LC: Com certeza. Desde quando comecei o WQS, eu já não tinha patrocínio. Então, era sempre do meu bolso, meu pai me ajudando... Era muito difícil manter isso e dar uns tiros para Big Wave... Todo dinheiro que eu fazia no WQS, eu guardava e investia em uma trip de onda grande, que era o que eu gostava. Comecei a fazer vários WQS, fui melhorando, fiz um ano bom, lucrei um dinheirinho e fui para Mavericks (EUA). Lá eu me apaixonei de uma forma... Soube que queria aquilo para mim, mas não sabia qual era o caminho para entrar no Big Wave Tour, como fazer... Foi aí que meu tio, Marcos Monteiro, que me levou em Mavericks pela primeira vez, me conectou com o Carlos Burle, que é meu treinador agora. Trilhamos um caminho e deu um pouco certo.

SAF: E que ano foi essa "virada de chave"?

LC: Foi em outubro de 2016. Eu tinha feito um ano todo de WQS, não tinha ido tão bem, estava meio sem ponto, mas tinha um dinheiro guardado. Foi quando o Burle me chamou para treinar em Nazaré (Portugual). Meu tio não conseguiu ir junto dessa vez, mas eu fui com o Burle. Foi aí que conectamos, começamos a trabalhar, tivemos uma afinidade boa e começamos a ver que nosso trabalho estava dando certo. Queríamos entrar no tour [de big wave], esse era nosso objetivo. Trabalhamos bastante de outubro até fevereiro, foi quando conseguimos entrar no Big Wave World Tour pela Performance of the Year.

SAF: E você lembra como foram as primeiras experiências em ondas grandes?

LC: Na verdade, eu sempre gostei muito. Desde moleque eu ia para o Havaí, com 14 anos, já surfava Waimea grande, 18 pés, 20 pés... Sempre quis ir para Jaws. No primeiro ano, meu pai não tinha deixado, no segundo não deixou de novo... Aí no terceiro ano, eu já tinha 18 anos, trabalhei no Havaí, comprei minha primeira passagem para Jaws e fui ver a realidade, né? Waimea é uma onda bizarra, mas não é igual Jaws, Mavericks, Nazaré, Puerto Escondido... Essas ondas que são power. Waimea é mais soft assim, abraça a gente, é mais fácil. Na minha primeira vez em Jaws, já peguei um swell gigante, já consegui pegar algumas ondas e me dar bem no pico. Fiquei muito feliz, já me apaixonei pela parada. Dropar uma onda gigante foi a coisa mais feliz da minha vida. E queria repetir isso. Continuei trabalhando no Havaí, indo para Jaws em todo swell, com uma prancha só, e deu certo. Fiz a temporada, três Jaws... Levei até meu irmão nessa temporada, ele tinha 14 anos, pegou uma bomba também...

SAF: Você trabalhava com o que no Havaí para conseguir esse dinheiro?

LC: No Havaí, eu trabalhava de pedreiro, jardineiro e fazendo comida em um food truck. E aí, eu fiz uma grana, consegui juntar um dinheiro forte para viajar três vezes para Jaws, comprar duas pranchas...

SAF: E você ficou nessa por quanto tempo?

LC: Fiz quatro meses de trabalho.

SAF: Mas valeu a pena, né?

LC: Valeu, valeu muito a pena. Foi o pontapé.

SAF: E como é a vida de um big rider? Viver em torno de um swell...

LC: A vida de big rider não é fácil, né. É mais ou menos isso aí mesmo. A gente tem que estar 365 dias do ano pronto para, quando acontecer [um swell], estar 100% pronto para o que vier. Só sabemos dos swells uns cinco dias antes. Então, temos que ter a vida livre. Não posso marcar um eveto para daqui um mês, nunca sei se vou estar daqui um mês no Brasil, ou na Austrália... Nossa vida não é tão um mar de rosas que tudo mundo pensa. A gente viaja, vai para uns lugares irados, pega várias ondas, mas temos que estar prontos para viajar em qualquer momento e circunstância - dormindo em aeroporto, fazendo escalas gigantes... Temos que chegar naquela hora, naquele momento e pegar a hora boa do mar.

SAF: Já deve ter rolado várias frustrações também...

LC: Isso é uma coisa que temos que estar dispostos, pode acontecer. Sempre muda um pouquinho, o vento sempre muda, o swell muda, aumenta, diminui... É a mãe natureza, ela que manda, temos que estar sempre abertos para o que ela vai entregar para a gente.

SAF: Vamos falar da parte financeira. A conta está fechando?

LC: A conta ainda não fecha, a gente investe mais do que ganha, mas é meu sonho, o esporte que amo, meu trabalho. Vou continuar investindo, tenho recebido uns bons frutos... Deu para dar uma respirada depois que ganhei o Nazaré Challenge, para começar esse ano... Se não fosse isso, a gente ia fechar a conta no negativo total esse último ano.

SAF: O apoio é diferente para quem está no big wave ou na pranchinha?

LC: Na verdade, é o mesmo apoio, estou aberto aos patrocínios, tenho dois que me ajudam muito, que é a Blu-X e o Spoleto, que são os que me ajudam financeiramente. Também tenho outros co-patrocínios. Spoleto bancou meu tour esse último ano, a Blu-X estamos em uma campanha com eles, temos trabalho legal juntos... Mas as marcas em si não estão muito felizes com a economia e não sei por que não estão patrocinando a gente, mas vamos esperar, vai que uma hora da certo.

SAF: E vencer a etapa em Nazaré foi o auge...

LC: Pô, Nazaré foi incrível, parece que nem aconteceu. Foi um sonho realizado. Foi muito trabalho. Eu e o Burle trabalhamos muito para isso, investimos pesado, queríamos muito que isso acontecesse. No ano passado, tive minha lesão no início, que foi uma coisa que me bloqueou bastante. Quebrei o perônio e rompi dois ligamentos do tornozelo... Fiquei quatro meses em reabilitação, mas depois de dois meses já estava de pé, surfando de novo... Meu objetivo já era ser campeão mundial, bater de frente no tour, conseguir um espaço lá dentro... Mas Deus sabe o que faz, ele que escolhe. Foi bom para mim [a lesão], um aprendizado e amadurecimento gigante para mim. Passei por cima com tudo. Perdi a etapa de Puerto Escondido, que era a etapa que eu sonhava em competir, e talvez esse ano nem role, mas fui com tudo para as outras etapas. A primeira etapa foi em Jaws, tive um desempenho muito bom, mas calhei de cair em uma superheat, a segunda semifinal, só com notas altas, fiquei em quinto e terminei em 9º no geral. Estava treinando muito, queria minha reclassificação para o BWT, precisava de uma final e deu certo. Fui para Nazaré com sangue no olhos, já tinha gastado quatro vezes em Nazaré, estava pronto, sabia tudo que ia acontecer naquele evento. Cheguei muito bem, com o Burle, foi um sucesso, estava confortável e seguro para tudo que viesse. Acho que ganhei por isso. Tive muita ajuda de todo mundo para realizar meu sonho e consegui colocar o Brasil de novo no lugar mais alto do pódio.

SAF: E depois ainda teve o Capítulo Perfeito...

LC: No Capítulo Perfeito, mais uma vez a minha experiência ali em Nazaré me deixou muito a vontade. Muito tempo que eu não encostava na prancha pequena, só surfando de gunzeira, de prancha de town in... Quando encostei, foi dois dias antes do evento para treinar. Consegui colocar a prancha no pé, me entender... Nazaré conheço bastante aquela onda, consegui me posicionar no campeonato inteiro... Que pena que não ganhei, estava com tudo para ganhar, só não consegui achar as ondas ali no final, mar já estava bem ruim. Tudo que eu colhi esse ano foi muito bom, estou muito grato. Espero que logo mais apareça alguma marca para me patrocinar.

SAF: Nós vimos você atacando as ondas em Nazaré. Já é uma evolução no Big Wave?

LC: Acho que a nova geração tem vindo com uma cabeça um pouco diferente. Como batemos muito de frente no WQS, competição, a molecada treinando muito para ser WCT... Quando descobre a paixão pelas ondas gigantes, acabamos atuando diferente. Acho que a "velha geração" - eles são novos ainda e botam para fuder com a gente ainda -, abriram as portas, mas hoje estamos chegando com outra pegada, outra performance, outra visão da onda. Não queremos só sobreviver na onda, queremos performar e conseguir fazer o nosso melhor na onda, né?

SAF: E como é o relacionamento com o Burle?

LC: Eu dou graças a Deus por ter o Burle do meu lado. Acho que foi essencial, um ponto alto na minha carreira. Com ele, trabalhamos minha cabeça melhor para competir nas ondas gigantes, me adaptar ao novo mundo das ondas gigantes. Eu falo que ele é a experiência e eu sou o talento e o cavalo. Ele coloca a rédea e o cavalo está dando certo, é um cavalo de raça, que é só adestrar e colocar certinho. Ele é como se fosse uma família para mim. Agradeço ao meu tio Marquinhos, que foi quem nos conectou. O Burle mudou minha cabeça, minha vida. Não só a minha, mas da minha família. Pensamos diferente. Foi muito importante na minha vida. Não só conhecer ele, mas trabalhar com ele. É incrível. É uma gratidão eterna.

SAF: E quais são os planos e objetivos para o futuro?

LC: Se a gente for falar de futuro próximo, estou indo para o XXL em abril, dia 24 é a festa, tenho muitas ondas concorrendo, conto com a torcida de todo mundo. É difícil ganhar, mas estamos bem, concorrendo com ondas muito boas. Futuramente, é continuar trabalhando, produzindo conteúdo, esperando os eventos de onda grandes, esperando as ondulações chegarem a algum lugar do mundo para ir atrás delas. Esse ano vou correr alguns WQSs também, vou tentar investir para não ficar muito parado, manter um ritmo de competição. Essas são minhas metas. Quero muito levar o Brasil para o pódio, ser campeão mundial e espero que isso seja breve.

SAF: E disputar o WQS é só para manter o ritmo mesmo?

LC: Acho que é só para manter um ritmo de competição, uma estratégia minha, não conta para ninguém (risos). [É bom para] manter aquele ritmo, aquele surfe afiado e aquela adrenalina da competição sempre em dia, sabe? Aquele milésimo de segundo que você pensa rápido na competição muda tudo.

SAF: Mas ainda existe a chance de mudar sua cabeça e tentar entrar para o WCT?

LC: Isso é uma ideia longe, nem passa pela minha cabeça agora. Vou competir WQS, se eu passar baterias, vou fazer pontos, se ganhar muitos pontos, vou classificar para os Primes... Quero escolher bastante as etapas que quero competir, para ir em ondas boas, que consiga surfar melhor. Então, não vai ser um investimento total, full time, no WQS, mas vou dar os tiros certos nas etapas boas para tentar resultados bons. E, talvez, algum dia, se eu entrar no Prime, acho que podemos pensar mais no WCT. Mas seu sonho sempre foi ser campeão mundial e é cada vez maior na disputa de ondas grandes, é o que mais amo na vida nesse momento, eu acho.