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Promessa brasileira, Mateus Herdy foca no WQS e já traça planos por WCT

Por Guilherme Dorini

Considerado uma das maiores revelações dos últimos anos, Mateus Herdy chega com tudo para sua primeira temporada completa na divisão de acesso do surfe mundial (WQS). Com apenas 17 anos, o brasileiro de Florianópolis terá a oportunidade de disputar pela primeira vez as principais etapas do WQS, e já com um claro objetivo: entrar para o Circuito Mundial de Surfe (WCT) no máximo em 2020 – isso se já não conseguir uma vaga para o próximo ano.

 Mateus Herdy / Foto: Divulgação

Mateus Herdy / Foto: Divulgação

Depois de participar as duas maiores etapas da perna australiana do WQS, em Newcastle e Sydney, ambas valendo 6 mil pontos, Herdy, que ainda estava na Oceania, conversou com o Série ao Fundo para falar um pouco da sua carreira, amadurecimento profissional e seus objetivos e metas para essa temporada.

“Minha meta é entrar, se não for esse ano, no ano que vem. Quero entrar o mais rápido que eu posso. E, quando entrar, não quero sair. Sou novo, meu corpo ainda está desenvolvendo, ainda estou crescendo... Já troquei uma ideia com a Quiksilver, que é meu parceiro novo, para fazer trips [viagens] para ganhar mais experiência. Se eu não entrar esse ano, será um ano de preparação, mais experiência e força. Se eu treinar e dar o meu melhor, acredito que tudo vai acontecer”, disse ao SAF.

Filho do big rider Alexandre Herdy e sobrinho do ex-top do WCT Guilherme Herdy, Mateus já está acostumado com competições, já que disputou sua primeira etapa do WQS com apenas 14 anos de idade. Para a sequência de sua carreira, seus principais investimentos vêm da Red Bull, patrocinador de bico da prancha e boné, e da Quiksilver, acordo recém-fechado para borda e roupas diárias.

Confira o bate-papo completo com Mateus Herdy:

Série ao Fundo: Você já vem de uma família de surfistas. Acredito que escolher por essa profissão foi um caminho natural para você. Como foi isso dentro da sua casa?

Mateus Herdy: Em casa foi muito tranquilo. Minha família sempre me apoiou bastante. E hoje em dia existe bem menos preconceito com surfistas do que tinha antigamente. Na escola, a maioria dos professores gostava bastante, nunca tive problema quanto a isso, apesar de alguns não entenderem muito bem por que eu faltava e uma galera ainda pensava que era só curtição... Mas nem se compara com a época em que meu tio competia... Hoje temos o OFF, o Série ao Fundo... A mídia está muito maior... Tem o Gabriel (Medina), que mostrou que o surfe não é esporte de vagabundo.

SAF: Você está só com 17 anos, mas já compete desde criança. Como foi conciliar a carreira com os estudos?

MH: Então, eu tive que largar a escola. Foi uma conversa que tive... A parte da família do meu pai, todo mundo é médico - foi bem difícil convencer eles. No Brasil, existe essa lei que não pode ter "home school", não posso fazer depois. Para eu começar a fazer o WQS, e ir atrás dos meus sonhos, tive que largar a escola. Com 18 anos, eu vou poder fazer um supletivo para terminar. Então, eu parei no segundo ano do ensino médio.

SAF: Sua trajetória no WQS começou muito cedo, né?

MH: Meu primeiro WQS (etapa) foi quando tinha 14 anos, na Argentina, fiz oitavas de final, não esperava, me dei muito bem, passei umas cinco baterias. Foi muito bom para o primeiro WQS. Depois, continuei nos amadores, fiz bons resultados nos Pro Juniors, e ano passado foi quando decidi começar mesmo. De 15 para 16 anos que comecei a focar... No meio do ano que consegui virar Prime – fui para Cascais, Triple Crown... Esse ano é, de fato, o primeiro ano que estou competindo ele inteiro. Com a pontuação adquirida, posso disputar todas as etapas que não pude competir no ano passado.

 Mateus Herdy no QS de Mar Del Plata (ARG). / Foto: Beto Oviedo

Mateus Herdy no QS de Mar Del Plata (ARG). / Foto: Beto Oviedo

SAF: Quais são as principais dificuldades neste começo de WQS?

MH: A galera meio que reclama mais, mas eu, particularmente, não tenho problema com isso, que é o número de eventos. Estamos sempre viajando. Temos que ir para os eventos 3 mil, não são só os 6 mil ou 10 mil... Eu, que estou no início, estou atrás de milhas, eu ainda não tenho tantas quanto, por exemplo, o Thiago Camarão, que está competindo há tempos... Eles já viajam mais de primeira classe, e eu ainda no canil (risos), lá atrás... Pegar avião cansa, passar a noite em aeroporto... Essa viagem mesmo para a Austrália, fiz: Florianópolis, Rio de Janeiro, Miami, Los Angeles e Sydney. Cheguei completamente acabado, três dias de viagem... Você não come, não dorme bem... Gostaria mais se o WQS fosse dividido em pernas... Ano passado, por exemplo, fui para uma etapa no Japão, gastei a maior grana, perdi de cara e tive que voltar para casa. Poderia ser um pouquinho mais organizado.

SAF: Deve-se gastar muito dinheiro também. A conta fecha?

MH: Fechei com a Quiksilver de borda agora, meu patrocinador de roupas normais, e de bico fechei com a Red Bull, que também está no boné... Eu sou novo, tem bastante investimento em cima de mim... Eu estou bem, posso viajar, fazer o que quiser, a conta está fechando. Mas, no Brasil, na nossa idade, acho que só eu e o Samuel Pupo que temos essas condições. A realidade é que a maioria da galera está sofrendo para viajar três vezes no ano. Moleque da nossa idade, que já competiu e era para estar aqui competindo com a gente, não tem condições financeiras... E ainda tem uma galera do WQS que precisa ficar na casa de amigo...

SAF: Quem costuma te acompanhar nas viagens?

MH: Até o ano passado, eu viajei algumas vezes com o Ian Tavares, um amigo meu que filma e faz um bom trabalho. Mas a maior parte do ano eu viajei sozinho, totalmente sozinho... Ano passado eu gastei muito dinheiro na perna da Austrália, então, no resto do ano, tive que ir sozinho e guardar um pouco. Esse ano, fiz esses eventos aqui na Austrália com meu tio, Guilherme (Herdy), que tem bastante experiência... Até hoje, a maioria das viagens foi sozinho.

SAF: Quais são suas metas profissionais? Quando planeja entrar para o WCT?

MH: Eu tenho minhas metas, né? Acho que todo mundo tem... Eu quero muito entrar, acredito que vou entrar... Minha meta é entrar, se não for esse ano, no ano que vem. Quero entrar o mais rápido que eu posso, e, quando entrar, não quero sair. Sou novo, meu corpo ainda está desenvolvendo, ainda estou crescendo... Já troquei uma ideia com a Quiksilver, que é meu parceiro novo, para fazer trips para esses lugares tipo Fiji, Teahupoo, para ganhar mais experiência. Se eu não entrar esse ano, será um ano de preparação, mais experiência, força e para aprender ainda mais em lugares em que o Brasil não tem oportunidade de ter. Se eu treinar e der o meu melhor, acredito que tudo vai acontecer.

SAF: Para onde mais gostaria de ir?

MH: Eu quero ir para Fiji, Teahupoo... Quero ser o tipo de cara que é bom em tudo, quero ser o mais completo possível, sei que preciso melhorar, perder o medo de ondas gigantes, criar técnica em tubo para os dois lados... Quero muito ir para o México, que eu ainda não fui, é um sonho de criança ver aquelas direitas, ainda mais que sou regular. Tem muito lugar no mundo que eu acho que tem altas ondas e ainda não fui. Fui para a África do Sul, fiquei 45 dias lá, e não surfei J-Bay!

SAF: Você citou muitas ondas pesadas, tubulares... Acredita que é nessa característica que ainda precisa melhorar?

MH: Eu diria que sim. Lá em Floripa, temos tubos algumas vezes, mas não se compara com os havaianos (risos)... Particularmente, o que acho que falta no meu surfe, mas é mais questão de tempo, é o power, ganhar força, manobras que os juízes dão muita nota, e os tubos... O problema é que não temos tubo nenhum no WQS, sabe? Então, se falar para WQS, me falta o power, mas para WCT... Como é que vou ganhar do John John em Teahupoo se eu nunca fui para lá e se não entubo?

SAF: E das etapas do WQS? Ansioso para alguma em especial?

MH: Sri Lanka é uma onda que eles estão tentando, não é certo que vai rolar, mas dizem que é uma direita muito boa. E uma que não vejo a hora de ir é o US Open.

SAF: Além do seu tio e seu pai, quais são suas inspirações no surfe?

MH: Eu gosto muito de ver todos os surfistas que são completos. Para mim, um cara que é muito completo é o Julian Wilson, que sempre cito... Ele surfe de backside, frontside, da aéreo, surfa muito de borda, pega tubo para os dois lados. É muito completo em relação ao surfe, talvez não tão competitivo quanto o Gabriel (Medina) e o John (John Florence), mas ele é muito completo. Tem também o Gabriel e o John John... São esses caras que estou acompanhando bastante.

SAF: E daqueles que ainda estão brigando por um espaço?

MH: Vitinho Bernardo está sempre provando, o Deivid (Silva), que ganhou aqui agora, é um cara muito completo, você vê ele em umas condições... Jogando muita água, fora do normal. Tem o Samuel (Pupo), sem comentários, surfa muito. Tem o João Chumbinho. Tem um cara que está vindo do Brasil que acho que vai destruir todo mundo é o Eduardo Motta, fiz a trip com ele para Mentawai... Entre os mais novos, ele destruiu: pega tubo, quebra, já falei para ele vir para o WQS. Tem muita gente na verdade, os brasileiros surfam muito. Todos são meus parceiros. O Yago (Dora) já é WCT, né? Mas é impossível não falar dele. Toda vez que eu estou surfando, e estou rendendo, eu penso: 'o Yago teria feito o dobro disso'. Toda vez que viajei com ele, ele rende, não cai [de rendimento] nunca.