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Ryan Callinan tenta, mas último wildcard campeão ainda é brasileiro

 Crédito: Sylvia Lima

Crédito: Sylvia Lima

Por Guilherme Dorini

Ryan Callinan bem que tentou, chegou perto, mas ser campeão da elite como wildcard não é para qualquer um. Na última sexta-feira (12), o australiano, depois de já ter eliminado Filipe Toledo no terceiro round, deu trabalho ao compatriota Julian Wilson na grande decisão, mas tomou uma virada nos últimos cinco minutos e acabou com o vice-campeonato na França. Assim, o último atleta wildcard a ser campeão de uma etapa do Circuto Mundial de Surfe (WCT) segue sendo brasileiro: Bruno Santos.

Há 10 anos, Bruninho, como é conhecido, mostrou por que é considerado um dos melhores tubriders do mundo. Em 2008, em Teahupoo, no Taiti, ele não teve vida fácil. Além de se destacar nas seletivas locais - batendo, inclusive, Jamie O’Brien -, deixou para trás Taj Burrow, Mick Fanning, Adriano de Souza, C.J. Hobgood e o local Manoa Drollet na grande decisão.

A vitória, além de consagrar Bruninho, foi responsável por acabar com um enorme jejum brasileiro no WCT. O Brasil não conquistava uma etapa da elite desde 2002, com Neco Pararatz na França. Ou seja, um longo tabu de seis anos.

Há dois anos, quando eu ainda era repórter do UOL Esporte, tive a oportunidade de conversar com Bruninho sobre aquele histórico momento. Relembro abaixo alguns trechos daquela entrevista para vocês.

VITÓRIA ESPECIAL

"Essa vitória teve um gostinho especial por vários motivos. Primeiro que, na época, o Brasil estava passando por um grande jejum de vitórias. Era uma transição entre a geração do Renan (Rocha) e a Brazilian Storm. Eu também não fazer parte da elite, sem dúvida, deu um sentimento especial. Wildcard quando vence é sempre especial, ainda mais não sendo um local do pico. Ainda existia aquele preconceito de que brasileiro não sabia surfar bem ondas tubulares. Galera ficou amarradona na minha vitória. Com certeza ter sido o primeiro brasileiro a vencer ali também tornou mais emocionante, é uma das etapas mais cobiçadas do tour".

PERNA ARREBENTADA

"Foi um campeonato recheado de imprevistos. Primeiro, arrebentei minha perna na semifinal da triagem. Comecei com uma nota 10 na bateria, mas, logo na sequência, caí dentro de um tubo e levei uma pranchada. Abriu minha perna, e ainda surfei a semi e a final com a perna aberta. Só depois fui para marina levar 15 pontos para fechar o corte. Foi um buraco bem grande, que me deixou sem surfar até começar o evento principal.”

PRANCHA EMPRESTADA

“Quando chegou a etapa principal, eu já tinha quebrado todas as minhas pranchas durante a triagem e tive que pegar uma prancha emprestada de um cara que nunca vi na vida, um israelense, mas deu sorte e acabei vencendo com a prancha dele".

 Crédito: Sylvia Lima

Crédito: Sylvia Lima

TRIAGEM

"O campeonato para mim foi muito longo, já que tive que começar nas triagens. Tive baterias alucinantes nas triagens, as condições estavam épicas, 10 a 12 pés... Fiz baterias alucinantes com vários surfistas que não estavam na elite, mas que são especialistas neste tipo de onda, como, por exemplo, Jamie O’Brien".

DISPUTA ACIRRADA

"Durante o evento principal, as duas baterias mais apertadas foram contra Mick Fanning e o Mineiro (Adriano de Souza). Como é um campeonato longo, algumas baterias você ganha com certa vantagem, outras são mais equilibradas... Essas duas foram realmente bem apertadas. A do Mick eu virei na regressiva, na última onda, quando já nem acreditava mais que dava para virar. Contra o Mineiro, não. Essa foi uma que dominei a bateria inteira, mas com notas baixas, e até vacilei no final, deixei ele pegar uma que quase conseguiu a virada".